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POEMA & ENTREVISTA

 
 Abstrato - Tânia Cabeza

POEMA - FIM DOS TEMPOS 

Nunca se sabe o peso de uma vida inteira.

Cultivo nuvens para uma velhice

cheia de sol.


ENTREVISTA - PO&SIARTE - ENtrevista Angel Cabeza

Tive o prazer de receber por e-mail a solicitação para uma entrevista feita por Antônio Alves, enviada pelo folhetim impresso PO&SIARTE de São Paulo.
Todos que participam deste folhetim são alunos de Letras.
Abaixo seguem o poema e a entrevista. Espero que gostem.

 

Angel Cabeza é poeta, cronista, músico e compositor. Carioca, cursou Letras, utiliza a Internet como meio de divulgação virtual e assina colunas em jornais impressos.
É autor do livro de poemas Vidro de Guardados e A Beleza do Feio, crônicas.
Fala para o folhetim PO&SIARTE.

PO&SIARTE: Na atual sociedade, onde muitos jovens acabam direcionando a atenção para fora da literatura, como você vê o mercado de poesia e livreiro no geral?

 

AC: Não entendo porque dizem que o brasileiro não lê. O mercado livreiro cresceu 6% em relação ao ano passado. Existem editoras que cresceram absursos. Você entra em uma livraria e não consegue andar de tanta gente. O que existe é estigmatização no mercado. Por exemplo, quando dizem que poesia não vende é mais pelo retorno financeiro editorial do que pelo gosto da arte em si. É a marca que as editoras veem para o produto “poesia”. Muitos jovens produzem poesia, mas não lançam poesia. Por sua vez, as editoras não querem arriscar nos novos autores por acharem perda de capital. Poesia vende muito, temos aí provas como Carpinejar, Adélia Prado. É um erro dizer que poesia não vende e que brasileiro não lê. O problema é as editoras abrirem a cabeça para analisarem bem os originais e perpetuarem a arte maior. Até o início do século 19 nossa maior arte era a poesia. Hoje ela ficou em segundo plano, infelizmente, não pelos escritores, mas pelos editores.

 

PO&SIARTE: E o que você acha da nova safra de poetas e escritores, e da aceitação no mercado?

 

AC: Acho que se cria muito e distribui-se pouco. Temos excelentes poetas, como Eucanaã Ferraz, Angélica Freitas e seu Rilke Shake, ambos pela 7 Letras se não me engano. O problema é que muitos potenciais são abafados pelo mercado não abrir. Também possuímos os que não são tão bons assim, mas isso é uma outra questão. Como dizia Quintana: “Existem dois tipos de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores”. A poesia brasileira jamais morrerá, ela vestirá sempre uma nova roupagem no decorrer do tempo. Lembro-me da geração do mimeógrafo que lançou Chacau, Cacaso e outros. Hoje não há mais mimeógrafo, mas a poesia continua.

 

PO&SIARTE:  Há a Internet, o Blog. Isso ajuda?

 

AC: A Internet modificou a literatura. Arrisco-me a dizer que poderíamos conceituar um novo movimento literário, talvez o “internético” (risos). A Internet abriu portas para pessoas como Clara Averbuck, que publicava seus pensamentos e conseguiu ser uma grande escritora contratada. Temos o poeta e romancista Rodrigo de Souza Leão, entre outros. Até mesmo Saramago já se adaptou ao Blog. Vemos autores se lançarem e alcançarem as tão difíceis editoras através do mundo digital. É globalização. Posso ser lido na Espanha sem fazer muita força. O problema é que você deve se responsabilizar pelo seu marketing e pela sua distribuição eletrônica até que consiga seu desejo. Faça barulho e será ouvido. Entretanto, o marketing maior continua sendo o da editora, a compra de espaço, que custa fortunas. Eu mesmo tenho um Blog e preciso estar anunciando constantemente.

 

PO&SIARTE:  Você já escreveu para vários sites e revistas na Internet. Como é seu produzir poético, mais suor ou inspiração? Existem os que defendem mais o suor do que a inspiração. O que acha?

 

AC: Há aqueles que defendem a poesia como João Cabral de Melo Neto já explicava: catar feijão. Acredito que possa ser como catar feijão, mas existe uma centelha de inspiração. No meu caso, é mais inspiração. Depois que ela aparece, burilo até a última palavra, mesmo assim, sempre acho que poderia fazer melhor. Clarice Lispector dizia que nunca relia seus textos, pois sempre sentiria necessidade de mudá-los. Eu sou assim. Entretanto, por mais inspiração, suor e desejos, você precisa cicatrizar o livro. Muitos livros são terminados pelo simples fato de terem que ser finalizados. Existem poemas que duram anos para amadurecerem.

 

PO&SIARTE:  E o seu primeiro livro, Vidro de Guardados, como traçá-lo?

 

AC: Vidro de Guardados é um livro em que eu não coloquei linha temporal, nenhum fio condutor. Contudo, os poemas não pertencem ao poeta, têm vida própria. Quando releio o material vejo um fio condutor quase imperceptível de lembranças e sonhos; de temores e uma pitada de religiosidade em poemas como Canção do Tempo. Poderia dizer que é um livro sobre memórias, mas prefiro que cada poema tenha um peso filosófico de vida, separadamente. Não tive a intenção de colocar nele um tema, embora me pareça que o tema forte gira em torno da filosofia de viver. São versos soltos que podem se unir em qualquer momento. É a filosofia das coisas simples.

 

PO&SIARTE:  Você se insere em seus textos?

 

AC: Não acredito em cronologias. Todo texto tem a essência de seu criador. Brincamos de Deus, porém, nenhuma criatura se voltará ao Pai. Muito de mim compõe cada verso.

 

PO&SIARTE:  Você também é proseador, mais precisamente, cronista. Qual a diferença entre poesia e prosa?

 

AC: A poesia traz mais vida, a filosofia da vida, dos momentos. Posso ser mais sério, ter mais liberdade, falar do pão, da fome, da morte, da vida, ser enfadonho ou não. Tudo sempre será poesia. Jogar com palavras ou ser objetivamente simples. A poesia, para mim, é um baú de guardados. Nela, sou mais livre, respiro (ou não - risos). Já com as crônicas é diferente, existe uma regra a seguir. Claro, também acredito na função poética da crônica, só que de outra forma. Vemos Rubem Braga utilizando com perfeição a crônica poética e João Ubaldo a prosa entre amigos. A crônica é mais densa, o poema transcendental. No meu caso, acho estar mais voltada para uma conversa entre amigos – eu e o leitor. Vez por outra perco-me nas “poeticidades”.

 

PO&SIARTE:  Seus poemas são bem simples, porém, passam uma filosofia profunda e até fazem os leitores pensarem, como vemos no poema “Telegrama do Oriente”. Essa é a idéia?

 

AC: O poeta é um pintor de pedras. Pego a realidade ínfima, aquela pequenez da alma, momentos de uma fotografia, e pinto de uma forma bela para que todos possam ver. Não acredito em poemas complexos onde fechamos logo na segunda página o livro. Desaprendi o rebuscado e me doutorei em sentimentos. Basta-me uma folha seca para um poema. Uma lágrima é bela e não é necessário nada mais para ser entendida.

 

PO&SIARTE:  Quais autores você lê? E lê muito?

 

AC: Leio mais do que deveria, menos do que gostaria. Releio sempre os mesmos livros, mas sempre navego para encontrar novidades. Gosto de Quintana, Adélia, Ungaretti, Gary Snyder, Brecht, Bukowski, Maiakovski, Bandeira, Drummond, Gullar, e muitos outros. Dos novos, Angélica Freitas, Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz, Carpinejar etc. Em crônica, gosto dos nossos clássicos, Braga, Raquel de Queiroz, Ponte Preta, Ivo, João Ubaldo, Drummond... a lista é grande.

 

PO&SIARTE:  Para encerrar, um verso próprio.

 

AC: Os homens sofrem como as pedras/ cheios de musgo verde/ e caras feias.

 



Escrito por Angel Cabeza às 23:21
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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Angel Cabeza é poeta. Cursou letras, é casado e tem 3 filhas, Homem



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