Angel Cabeza é poeta, cronista e autor dos livros Vidro de Guardados (poemas) e A Beleza do Feio (Crônicas). Cursou letras e preambulou o livro do maestro, cineasta e compositor de Daniela Mercury Dudu Fagundes. Escreve para revistas e jornais.
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DUETO CRÔNICO - duas crônicas sobre pessoas públicas
:: EFEITO BOCHECHA::
Publicada no jornal Objetiva em Foco

Não adianta reclamarem, vou falar novamente sobre política. Quem me conhece sabe que gosto de ficar à margem de assuntos em que cada um tem uma opinião e todos saem ilesos quando nenhuma das partes é subjugada, ou seja, não meto a mão onde muitos gostam de remexer. Na verdade não será sobre política em si, não se preocupem, mas sobre uma mania que atinge 99, 99, 99, 99% (chega) dos aspirantes aos cargos de Prefeito, Presidente e outros.
B.O. ganhou, E.P. ganhou, todos ganharam, mas eu continuo na mesma, televisão, livros e a preguiça que me faz escrever. Foi quando emergi do marasmo por uma retrospectiva da inclinação de Bush ao poder. Entre todas aquelas cenas que tomam o nosso tempo, notei a velha máxima que não se cala jamais: erguer uma criança e beijá-la, sorridente, na bochecha esquerda ou direita. Agora me respondam a esta pergunta política: por que raios todos os que almejam o poder vêm com esta mania, um cacoete ou doença generalizada, de erguer crianças recém-nascidas e beijar-lhes as bochechas num ar misto de fraternidade e imaculação? Não é de hoje que isto é fato, tudo bem, mas o vício político em bochechas é tão grande que ultrapassa os limites da razão. Outro dia mesmo, E.P. (prefiro não citar nomes para não ser maculado e espero que vocês entendam), flanando pelas calçadas da tijuca, cismou de beijar a todos que por lá também flanavam (essas campanhas, sabem?) O pior é que não eram apenas as crianças que recebiam o estalo nas bochechas. A onda seguiu outro rumo. Eram idosas, jovens, seminovos, gente que nem sabia o que se passava e, sinceramente, acredito que até os moradores de rua e alguns cachorros receberam alguns. Por sorte, consegui mudar de calçada. Quase que também fui agraciado com um, que seria o cúmulo do apelo. De duas uma, ou eu me dirigiria até a delegacia mais próxima para registrar um atentado ao pudor ou mandaria E.P. para sei lá onde.
Rabugices de lado, fico a pensar em algumas teorias sobre o efeito-bochecha nas campanhas políticas. Primeiro, tentar arrancar do pai ou mãe um votinho sequer, deixando a marca na querida criança e futura eleitora. Muitos, por tempos, sequer lavarão as bochechas dos seus filhos. Seria como um autógrafo mais interativo. Alguns fazem questão de levar as bochechas de seus pequenos até o candidato. O indefeso não tem nem o direito de reivindicar, sobrando o misto de assombro e choro. Em uma segunda cutucada, posso dizer que os próprios candidatos querem eternizar a sua imagem. Esperam, quem sabe ao crescerem, que aquelas crianças lembrem-se do singelo ato “sem interesses” e doem um voto caridoso em virtude da bochecha beijada.
Não me conformo e pronto! Imaginem se todos aderissem à moda do efeito-bochecha? Poderia eu sair por aí distribuindo beijos aos meus futuros leitores. Quem sabe arrecadaria algum comprador ou adepto para a literatura?
Não, ainda não sou do time das bochechas, digo, dos beijos. Lutarei muito e não deixarei que me ataquem. Entretanto, tenho que concordar com uma coisa: pelo menos ainda são as bochechas as vítimas destes beijoqueiros.
:: SONHO ENCANTADO::
Publicada no jornal Objetiva em Foco

Sim, eu também queria ser um grande rei em terras brasileiras, com castelo e tudo, súditos, água de coco e nada mais para fazer, se eu pudesse. Disse bem, se eu pudesse. Como o período do reinado já se foi (embora muitos se achem “reis da cocada preta”), não tenho herança alguma e não ganhei na mega-sena, continuo em meu palácio de cimento, neste mundo cheio de picardias e mentiras. Mesmo que tivesse, já arremataram o maior castelo existente no Brasil, que deixa no chinelo qualquer brinquedo do parque temático Disney World e que faria os dragões temerem os seus moradores. Não, vocês não estão em um conto de fadas, o que eu gostaria de acreditar; está mais para conto do vigário do que para uma fábula de Esopo, quase surrealista. Eu mesmo não quis dar crédito quando me deparei com a barbárie estampada nas capas das revistas semanais. Juro que fiquei com uma pontinha de inveja daquele castelo. Eu que sou acostumado a castelos de areia (no máximo) queria um daqueles para mim, mas furaram a fila e perdi minha vez. Daria o meu suor, o meu pão e o meu trabalho honesto para erigi-lo, se bem que talvez já estivesse na terra do pé junto quando isto acontecesse, se acontecesse. Contudo, alguns conseguem ter coragem para dar o suor, o trabalho e a força... alheios. Mereciam o óleo do indiozinho de presente no próximo natal. Está aí, o Deputado Federal Edmar Moreira está mais para um dragão mal intencionado, daqueles que aprisionam as princesas e cospem fogo, do que para o príncipe encantado do final feliz que muitos achavam que ele seria; não chega nem aos pés do sapo que recebe o beijo da linda princesa. Depois de três escândalos em que se envolveu, ainda tem a cara dura de aparecer por aí com um castelo, aliás, deixemos claro, o único castelo no Brasil com estruturas megalíticas inspiradas nos modelos europeus, trinta e duas suítes com hidromassagem e, para as festinhas dos mãos leves, uma adega climatizada com espaço para oito mil garrafas – haja folião e carnaval. Tudo isso e muito mais com um pequeno investimento de vinte e cinco milhões não declarados (quem diz isso não sou eu, mas a justiça). Há quem diga que o castelo ainda seria um cassino, quase batendo Las Vegas, uma vergonha. Tá, ele até que fez umas coisinhas por aí e ajudou algumas pessoas, mas enquanto de um lado nossas UPAs sequer possuem médicos, do outro multidões enriquecem e esperam o carnaval enquanto as manchetes estampam a grande obra de um deputado que agora é coroado REI com a verba de terceiros; REI dos desvios. Só espero que consigam descobrir de onde estes vinte e cinco cheios de zeros que ele utilizou para erigir o sonho encantado surgiram, e olhem, pelo menos, por aqueles que esperam para se satisfazerem com um cômodo. Eu continuo seguindo com uma pontinha de inveja, triste pelo fato e pensando em quantos portais dimensionais encontraria naquele castelo ou fantasmas antigos que iriam me assombrar para sempre (tirando os meus, é claro). Acima de tudo, com um temor de tremer os fios dos cabelos, espero que por lá não haja potes com água, pneus velhos e depósitos de lixo, pois poderíamos sofrer muito com algumas centenas de milhares de mosquitos dengosos a mais, mosquitos da realeza.