Angel Cabeza é poeta, cronista e autor dos livros Vidro de Guardados (poemas) e A Beleza do Feio (Crônicas). Cursou letras e preambulou o livro do maestro, cineasta e compositor de Daniela Mercury Dudu Fagundes. Escreve para revistas e jornais.
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ANGEL CABEZA
Pintura de Klee
ANGEL CABEZA
Moça com ventarola
Pintura de Gauguin
Nunca vi acontecerem tantas rupturas afetivas, em tão pouco tempo, como hoje em dia nos são apresentadas por meio das mídias televisivas. Digo rupturas afetivas porque podem existir outros tipos de rupturas, como de ligamentos, de salários, rupturas políticas, entre outras tantas que poderiam ser relatadas aqui, mas tomariam muitas páginas e cansariam a bela imagem mental dos leitores. Estas de qual falo, as rupturas afetivas, popularmente conhecidas como desquites, tomaram as páginas dos meios de comunicação e impressionam, desde as antigas senhoras em suas poltronas de couro antigo até os nossos modernos rapazes e moças, tecnologicamente avançados.
E não são apenas os desquites de cunho casamenteiro que estão perambulando livremente por aí. Também existem os desquites entre namoricos, entre noivos, entre affairs, e todos assim, como um flash, ou relâmpago, que não deixa vestígios. Basta que liguemos a televisão para que nos seja jogada uma bomba semanal sobre algum casal que, subitamente, se esvaiu entre abraços e beijos eternizados. Em quantos dias mesmo? Uma semana! Basta que saiam estampados, fulgurantemente, nas capas das conceituadas revistas de famosos e pronto, dias depois já não trocam mais elogios, mas buracos em meio às estradas do coração. Será que existe alguma maldição em torno dos fotolitos ou das páginas a quatro cores que permeia a vida conjugal dos chiques pombinhos? Qual será o segredo do amor?
Peguem algumas lembranças antigas, guardadas nos velhos baús dos avós, pais, principalmente, as pretas e brancas e comprovem: o amor antigamente tinha um tempo maior de ação. Não eram necessárias bulas e manuais. Muito menos, existiam contra-indicações para dosagens mais altas. O altar era uma nuvem alva para os dias de sol dos casais. Quando, subitamente, chovia, bastava que se protegessem embaixo de alguma marquise ornada por eles mesmos onde as gotas que escapavam fariam com que rissem de alguma coisa esquecida. Estavam ligados até o padecer do corpo, pois as almas estariam para sempre unidas.
Ao serem indagados por quanto tempo neste mar de paixão, o susto: eternizados por trinta e cinco, quarenta, até cinqüenta anos consecutivos sem uma separação ou cogitação de cada um seguir para um outro lado.
Séculos são séculos e devem ficar para trás, junto com a poeira das lembranças. Mas dava gosto admirar os casais, velhinhos, trocando carícias e beijos encabulados, simples, apaixonados, como duas crianças sem nenhuma maldade. Isso era a realidade amorosa dos anos dourados. As casas eram iluminadas. As paredes tinham ouvidos. E por mais longa que fossem as salas, os quartos e corredores, os corpos estariam na proximidade do pensamento. Quando um se sentava no sofá para assistir algo ou apenas descansar o outro, instintivamente, sentava-se ao seu lado, aparando levemente com os ombros a cabeça que era baixada pelo sono. Ao se esbarrarem na cozinha, juravam que aquilo já tinha acontecido, coisas de amores de outras vidas. Eram feitos um para o outro. Em sonhos, se encontravam para um passeio além mundos. É certo que se viam pouco, o que era bastante útil para o relacionamento, uma vez que o homem tinha o dever de proporcionar à sua amada os prazeres de uma vida tranqüila, sem problemas, e com o máximo de afeto possível. Mas fosse o que fosse, a mulher esperava ansiosamente o seu amado, transbordando de saudades como se fosse morrer caso ele demorasse um pouco mais do que o normal. A saudade estava até mesmo pelos cômodos da casa, cômodos grandes, espaçosos, amplos de sentimentos. Bastava que se tocasse em alguma parede para se despertar o sentimento.
Hoje está tudo diferente. Foi-se o tempo das coisas sublimes. O passear pelos jardins e praças, arte que só os amantes dominavam bem, não existe mais. As mãos dadas, o brilho nos olhares recônditos do casal, sinal de uma relação eterna em que eles queriam, mas não ultrapassavam o sinal vermelho, a timidez e os sorrisos sem espera dissolveram-se. Os sorvetes que eram consumidos a dois, que marcavam para sempre a lembrança, e os beijos que eram dados cuidadosamente na maça do rosto, quase como uma brisa leve de verão, também foram abolidos. Nada existe mais nas horas dos amantes. As fotos são coloridas e não guardam a eternidade nelas.
A modernidade trouxe benefícios, admito. Mas também trouxe com ela atrofiamentos. E o atrofiamento dos sentimentos foi o mais prejudicial deles. O contato pessoal que nossos antepassados tinham foi esquecido. As fotos estão cada vez mais rasas e solitárias. Basta um flash e, no dia seguinte, uma pedra aparece no meio do caminho. Contudo, é preciso conviver com as pedras do caminho e saber moldá-las em sonhos. Esse é o ponto chave.
Mas como eram belas as casas antigas, iluminadas, grandes na sua pequenez interna. Atualmente, tudo é compacto e está à mão – e eu até gosto em alguns poucos aspectos.
É isso! O segredo do amor está é nas casas. As amplas casas de outrora produziam a saudade perene dos corredores intermináveis e da ausência sentida, perdida pelos sofás unificados e rostos que se contemplam cotidianamente.
ANGEL CABEZA
Escrever literatura em um país que “quase” não lê literatura é uma tarefa árdua. Muitos ficam pelo caminho. Outros entram na miragem do deserto literário e jamais retornam. Escrever é padecer de suas palavras. Escrever não é um dom, mas um trabalho em que poucos são destacados e muitos são crucificados.
Uma vez perguntei a um professor de literatura o que era conto. A resposta? “Tudo o que você quiser chamar de conto”. Estranhei a mesma, mas, na época, eu ainda era muito jovem e havia começado a ler os modernistas. O mesmo havia dito que os meus poemas eram fragmentados e que não tinham peso literário. Ri e dei as costas. Cada filho, por mais feio que seja, é amplamente amado. E é deste amor que nasce a dança simbólica de Luciano Bonfim.
Já o tinha retratado em “Beber Água é Tomar Banho por Dentro”, excelente livro de poemas. Agora, nesta outra obra sua, “Dançando com Sapatos que Incomodam”, pude constatar que Luciano irrompeu as barreiras da literatura, especificamente do conto.
Quando falamos em contos, imaginamos textos com mais de seis páginas, imagens, linhas temporais, células dramáticas, etc. Não, nada disso se pode esperar de Luciano, mesmo porque os contos não estão na sua fôrma, mas na alma. Luciano teve a coragem de se sobrepor ao clássico e recriar, em linguagem própria, os seus próprios métodos textuais. Não direi experimental, pois tudo, por mais experimental que seja, tem o seu valor literário. Entretanto, em um destaque a parte, o autor foi extremamente inventivo e condensado. Um livro de contos que possui apenas 50 páginas e 29 micro-contos é um romper de barreiras e form
“Dançando com Sapatos que Incomodam” é um livro cheio de símbolos e imagens. Provindo da literatura Cearense, retrata de forma clara e direta muitos dos problemas sociais e familiares do Nordeste, como a seca, os duros dias das famílias pobres e a falta de emprego, principiando pelo título do livro. Ao folhear suas páginas encontram-se pedras e terra em contos como “Sina”: “...as caminhadas até o poço atrás de água...” ou “...a fome, a ida pra roça levando o “de comer” e o “de beber ” para os trabalhadores...” ou em passagens como: “... Meus irmãos, Dagoberto e Felismino, quiseram conhecer outras faces não tão secas... outras lastimações...”.
Distorcendo as linguagens formais, clássicas, dos contos tradicionais, o autor optou por estar mais perto da realidade dos fatos, aguçando os ouvidos dos leitores com diálogos onde a regionalidade, muitas vezes, permeia suas passagens, como lemos em “Na Brevidade Das Fugas”: “...vai morrer feladaputa! “Fez arrumação” de partir pra mim. Antes de ele se levantar lhe plantei três facadas...”.
Entretanto, além do social e da vida dura no chão do nordeste, mais diretas e desmascaradas, Luciano consegue incluir em muitos contos pensamentos mais filosóficos, que fogem do social e criam um ar transcendente nos textos: “Existem mundos destruídos pela imensa vontade de os preservarmos” ou “Toda prisão é dentro da liberdade”, também voltada à questão social (livres, mas presos na realidade dura da região onde sobrevivem).
“Dançando com Sapatos que Incomodam” é um livro misto de dor, alegrias, subjetivismos e, em alguns momentos, de poesia. Luciano não só se revela um crítico social, denunciador, mas um contista subjetivista e escultor, que talha os padrões normais, recriando tudo a sua maneira, a seu olhar; é um livro que denuncia, sonha e faz literatura, subjetividade do mundo.
Luciano Bonfim é graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará, e professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú. Publicou: Janeiros Sentimentos Poéticos – poemas; Beber Água é Tomar Banho por Dentro - poemas. Tem conto no Almanaque de Contos Cearenses (ed. Bagaço, 1997) e na revista CAOS PORTÁTIL (2005 e 2006).
Escreveu para o teatro “As Mulheres Cegas” (premiado no Festival de Teatro Amador de Acopiara-Ce/2000), Auto do menino Encantado e o Jabuti e o Gigante (premiado no Concurso Domingos Olímpio de Literatura - 2005).
Dançando com Sapatos que Incomodam
Luciano Bonfim
50 páginas
Edição do Autor
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