Angel Cabeza é cantor, compositor, poeta e cronista.
É autor do livro "Bíblia Infantil", a ser editado pela Geográfica editora ainda este ano, uma adaptação da bíblia para crianças. Cursou letras e, atualmente, assina uma coluna de crônicas no jornal Prisma. Escreveu para diversas revistas eletrôncias, entre elas, Famigerado e Bula. Publica, regularmente, artigos no jornal Ganesha. É, também, terapeuta floral, reikiano, numerólogo e se dedica aos estudos religiosos. Banda Disco de Vinil http://bandadiscodevinil.sites.uol.com.br Contatos com o autor angelcabeza@oi.com.br
Pintura de Miró
Finalmente o site
É com prazer que convido vocês a visitarem o meu site, criado recentemente.
Nele, vocês poderão conferir um pouco mais sobre mim.
Visitem o www.angelcabeza.oi.com.br
MINHA PRIMEIRA VEZ
Angel Cabeza
Resisti ao máximo para que não acontecesse comigo. Sou daquele que não me importo em dizer com quantos anos eu tinha começado; feito. Não, até hoje nunca tinha feito. Não sou do tipo que se enobrece com feitos deste gênero. Tinha era um temor, um exaspero profundo, só de pensar que poderia, algum dia, pisar no metal frio e ser erguido como pluma ao lado dos pássaros. Entretanto, certas coisas devem, e precisam, acontecer. É o tipo de situação em que não há volta, ou você se joga do décimo andar ou você enfrenta o seu oponente. Achei mais sadio enfrentá-lo, mesmo contra a minha vontade.
Era a minha primeira vez em um avião. Nunca havia entrando em um, nem para conhecer. Nunca havia pisado em um aeroporto, nem para comprar aquelas bugigangas caríssimas que por lá são vendidas. Precisei ir e pronto, sem saudade, sem um reconhecimento de campo, sem treino, sem lamentação e sem o grito de socorro que normalmente é expelido pela garganta. Fui sem olhar para trás.
Desde o dia anterior a minha viajem fiquei a imaginar as horas perturbadoras que eu passaria dentro daquele boing, daquela caixa de metal mais pesada que um carro e mais leve que uma pena. Pensava em fugas mirabolantes e até mesmo no imprevisível. O que fazer caso aquilo despencasse? Lá ia o cronista se esborrachar em alguma planície verde, bem patriótica. Quem sabe um pára-quedas? Por que não? Se os navios possuem os seus botes salva-vidas para caso afundem, por que os aviões não podem ter os seus pára-quedas para uma emergência?
Suposições. Nós sempre geramos suposições quando algo de anormal começa a espreitar a nossa alma. Quando mais jovem, eu sentia um pavor grande do trem fantasma, até entrar nele e descobrir que tudo era feito de um trapo que nem te conto. Com o avião é diferente. De lá, eu poderia jamais voltar.
Tudo bem, exagero ou pessimismo, mas, para mim, não, com certeza não era. Eu fui, sem olhar para trás. E eu ia, ficando. A cada passo, entrando naquela rampa escura que levava ao interior da nave, lembrava-me da entrada das montanhas-russas. Até o cheiro me lembrava o parque de diversão e a montanha que eu, até hoje, temo. Sou uma pessoa da terra. Do céu, já me basta a chuva. O resto é para os pássaros.
Entrei como quem entra em um campo inimigo. Sentei-me, precisamente, à janela. E logo eu, que nunca tinha voado, sentei-me à janela. Aqueles barulhos de motor sendo ligado e os sinais luminosos começando a aparecer me fizeram crer que Dummont só poderia estar com algum problema quando inventou o Quatorze Bis. Onde já se viu, pequeninos que nós somos esvoaçando por aí feito àqueles super-heróis dos desenhos. Entendam, somos destrutíveis.
Morrer de medo de avião é uma coisa, ter pânico é outra. Mas o que eu tenho mesmo é “aviofobia”. Quando aquelas asas se envergaram e as poltronas se inclinaram para trás, apertei o mais forte que pude o meu sinto – como se ele fosse o meu último recurso de sobrevivência – e senti o meu estômago reagindo ao descer da montanha russa, enquanto eu subia lentamente, como se aquilo nunca fosse acabar. São minutos ruins, mas todos eles são compensados quando você está planando por cima do paraíso que existe além terra. Após subir, parecia que eu havia finado e estava do outro lado, no céu. Era tudo uma grande calmaria. Não havia nenhum tipo de interferência sonora, apenas o azul celestial e as nuvens brancas sob meus pés. Agora entendo o quão felizes são os anjos, pois estão naquela brancura eterna de Deus. Uma brancura tão intensa que chega a cegar os olhos. Ali, eu poderia escrever quantos fossem os poemas sem a interferência do homem. Poderia amar e ser amado sem os olhares obtusos dos invejosos. Ali, eu estaria em sossego com algum anjo; em sossego comigo mesmo. Se morrer é estar neste paraíso, serei o primeiro da fila.
Horas se foram e o avião tornou a inverter meu espírito, pousando em terra firme e fazendo-me retornar ao corpo, para o meu alívio.
Ao desembarcar, fiquei com a estranha sensação de ter visitado o paraíso acima de nossas cabeças; de ter passeado por um momento em algum pedaço do paraíso, por onde somente os realmente fortes conseguirão passar.