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Angel Cabeza é cantor, compositor, poeta e cronista.

É autor do livro "Bíblia Infantil", a ser editado pela Geográfica editora ainda este ano, uma adaptação da bíblia para crianças.

Cursou letras e, atualmente, assina uma coluna de crônicas no jornal Prisma. Escreveu para diversas revistas eletrôncias, entre elas, Famigerado e Bula. Publica, regularmente, artigos no jornal Ganesha.

É, também, terapeuta floral, reikiano, numerólogo e se dedica aos estudos religiosos.

Banda Disco de Vinil http://bandadiscodevinil.sites.uol.com.br

Contatos com o autor angelcabeza@oi.com.br

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30/9/2006

ATENTADO

ANGEL CABEZA

PINTURA DE PAUL KLEE


O técnico, perdendo o jogo para o time do Irã, solicita a Temério, jogador reserva, que entre em campo e mostre porquê é chamado de “pés de chumbo”.

– Temério, chegou a hora! Vá lá e mostre para eles o que é futebol, está escutando?

– Estou. Posso beber um pouco d’água antes?

– Que água nada! Vá lá e faça com que eles percam bastante água.

– Mas eu preciso trocar a chuteira, pois est não me dá sorte.

– Use esta mesma, está ótima. E sorte eles é que precisarão.

– Mas, mas... O senhor sabe que não é assim!

– Temério, anda, eu já pedi a saída do Josevaldo.

– Peça para ele esperar um pouco mais.

– Não posso, Temério, o jogo está paralisado esperando pela sua entrada.

– Mas eu preciso colocar a camisa branca. Esta vermelha está me incomodando.

– Temério, pelo amor de Deus, use esta camisa e vá logo. Nós não estamos em uma tourada, mas em um JOGO DE FUTEBOL!

– Deus? Deus não. É Alah!

– Temério, você está ficando maluco? Tanto faz quem esteja olhando por nós. No mínimo, já deve estar ficando nervoso com tanta demora.

– Posso ir ao banheiro antes? É que me deu uma dor de barriga.

– Temério, o que é isso? Dor de barriga? Não me diga que você está com medo?

– Medo, eu? Claro que não! É que eu estou querendo me precaver. Posso colocar o amortecedor de impacto a prova de balas por baixo da camisa?

– Amortecedor do que? Bem que eu sabia. Está é com medo de entrar no jogo. Você não se garante? E os seus “pés de chumbo”, ora?

– É só uma alcunha.

– Eu sei, mas você a adquiriu por causa dos 800 gols na copa. E aí, hein, hein?

– É, mas agora é diferente.

– Diferente o que Temério? Meu Deus, eu estou perdendo a paciência.

O juiz começa a chamar a atenção do técnico e de Temério, solicitando que ele entre em campo. Os jogadores do time rival já começam a demonstrar impaciência, também solicitando a sua entrada, para desespero de Temério.

– Está vendo? Eu disse que era para dizer Alah e não Deus.

– Temério, isto não importa. O que importa é que você precisa entrar em campo, sem beber água, sem trocar a chuteira, sem mudar a camisa, sem ir ao banheiro e sem colocar este tal amortecedor. E já!

– Ah, mas o capacete eu vou colocar, sim. Não adianta, colocarei e pronto!

– Capacete? Isso não é futebol americano, Temério.

– E se alguma bala perdida vier a me atingir?

– Bala perdida? Que bala perdida? Se você não entrar agora quem vai dar tiro aqui sou eu!

– Mas o senhor não está entendendo, é muito perigoso entrar assim, de súbito.

– Perigoso o que Temério? Pelo amor de Deus, entre já!

– Está vendo? Você está provocando. Depois quem se ferra sou eu.

– Provocando o que Temério?

– O time adversário.

– E o que é que tem o time adversário? Até agora, pelo que eu sei, eles estão é com muita sorte. Precisamos virar.

– Eles são Iranianos!

– E daí Temério, qual é o problema?

– Ué, o senhor não lê jornal? Não escuta noticiários? Tudo está se acabando. É o fim do mundo. Os atentados estão embaixo dos nossos olhos.

– Temério, isso é apenas um jogo de futebol, FU-TE-BOL, entendeu?

– Sim, mas e se algum deles estiver com uma bomba embaixo da blusa? Pode haver homens-bomba no time adversário. Tudo está um horror! Outro dia mesmo eu ouvi que um homem se explodiu matando...

– Temério, cale a boca e entre! Quem vai acabar cometendo um atentado aqui sou eu!

– E a bomba?

– Que bomba Temério?

– Ué, a bomba que eles podem ter colocado dentro da bola?

– Bomba? Bola? Acho que esses noticiários não estão lhe fazendo bem.

– E quando o senhor disse meu Deus, não viu?

– Não vi o que?

– Como eles olharam para o senhor?

– Olharam como?

– Como se tivessem colocado veneno na água do nosso time. Já pensou como seria um atentado desse nível?

– Temério, pára com isso. Você está me assustando.

– Não disse. É isso mesmo. Ontem eu li que morreram não sei quantos dentro de um estádio. E de futebol!

– Vamos parar com esta brincadeira e entrar em campo?

– Não é brincadeira. O senhor precisa ver os noticiários. Aquilo lá está uma guerra que só vendo.

– Temério, se você não entrar em campo poderemos perder.

– Mas é melhor perder o jogo do que o pé, o braço, a cabeça.

– Credo, Temério, que coisa. Entra logo e vamos embora.

– E as minas?

– O que é que tem as minas?

– Ué, pode ser que eles tenham colocado minas na grande área. Aí, quando eu estiver quase fazendo o gol, BOOOM, saio voando pelos ares.

– Temério, não existem bombas no campo.

– Mas e a bola?

– Que bola?

– A bola do jogo, ora.

– O que?

– Ela pode guardar uma bomba por dentro, esperando apenas por um chute, um chutinho só que seja, para mandar para o além o jogador e até mesmo o goleiro.

– Temério, pára com isso, assim você está quase me convencendo.

Temério é empurrado pelo time e puxado pelo juiz para dentro do campo, de onde, a cada jogada, fazia gestos para o técnico, como se estivesse insinuando alguma coisa.

 E ninguém entendeu quando o técnico se jogou no chão, rolando para trás dos bancos com um pedaço de ferro na mão, assustado com o estrondo dos fogos em comemoração ao gol de Temério.


Escrito por Angel Cabeza às 20:13
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