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SEIS ESTRELAS



Eu não entendo nada de futebol, confesso. Sou o tipo de brasileiro que não liga muito para essas coisas de bolas, homens correndo e gols emplacando pontos, se é que existem pessoas assim. Nem parece patriota, deve estar pensando. Concordo, plenamente, com o teu lúcido pensamento. Mas é que sou uma pessoa não muito acostumada às peladas (não entenda outro tipo de peladas) que acontecem por aí. E olha que eu jogava futebol quando garoto. Pegava um blusão amarelo, um short azul, um tênis qualquer e ia para o gol imaginário feito com chinelos – na rua – me sentindo um Taffarel, ou para o campo de asfalto – raras vezes – me sentindo um Bebeto. No máximo, conseguia arrancar um uhhhh alongado da platéia quando jogava. Parei por força do destino, depois de ter levado uma cotovelada no olho em uma falta não cobrada por um juiz infeliz. Fiquei um mês quase carregando um tapa-olho enorme. Talvez esta seja a razão para eu não jogar e não sentir mais graça em acompanhar os jogos: traumas de criança. Sou tão ruim quanto o perna-de-pau do circo. Nem me convide para bater uma bola, pois posso quebrar-lhe a canela. Se for para ficar no gol – diga-se de passagem, a minha posição preferida – até posso pensar, mas nada garantido.

Ah, isso tudo até chegar a Copa. A Copa do mundo esperada por milhões de pessoas neste planeta, quer dizer, esperada pelo mundo inteiro e, se duvidar, esperada por outros sistemas galácticos. Somos levados por uma emoção olímpica daquelas que só no carnaval são externadas e até o mais lúgubre Ser amanhece. Porque todos sabem, a Copa é A COPA e não uma copinha qualquer. É como se fosse um desacato religioso não gostar de copa.

E é gostando de Copa que abro a minha garganta para um profundo GOOOOL do time do Brasil. Está certo que eles não jogaram lá essas coisas no primeiro jogo, pois o Ronaldo (fenômeno) estava mais pra lá do que pra cá e o único fenômeno que apareceu foi uns quilos a mais; muito menos o segundo jogo foi a apresentação do século. Mas quem sou eu para criticar? Será que eu faria melhor? Bem, para bom torcedor meio chute basta. O importante é bater na redondinha e enterrá-la na rede branca. O importante é COMPETIR.

Copa é lugar para todos, aliás, não tem nem lugar para se andar nas ruas. São camisas, bolas, bonés, cornetas e outras coisas mais que são quase que jogadas no rosto dos torcedores fiéis e aficionados em futebol, eternizando o Brasil em suas cores e formas. Nunca vi tanta coisa junta representando o Brasil como nos períodos da Copa. Vai de lenços de cabeça até fraldas para crianças e sanduíches ornamentados. É o espírito patriótico que desembainha a sua espada.

Outro dia, flanando por aí, observei um grupo que preparava uma oferenda. Adivinhem, para que o Brasil seja campeão. Isso sim é patriotismo! Em vez de uma galinha preta, uma galinha verde e amarela.

São tantas as promessas infindas que me perco nas contas. Nunca fiz uma sequer. Inclusive, acho uma besteira, afinal, quem embolsará os milhões não serei eu. Mas que elas existem, ah, isso sim, existem. São dietas fenomenais da lua, do sol, dos astros; dízimo aos pobres, deixar o cabelo crescer até o pé, mandingas e outras coisas. Entretanto, desculpem tocar no assunto, mas o “ser brasileiro”, pelo que vejo, é o que menos importa nestas horas.

Venhamos e convenhamos, é incrível como somos apenas patriotas quando estamos interessados em Copa do Mundo. Nunca vi alguém emplacar uma promessa para que a fome no mundo desapareça ou, ainda, para que o Brasil seja auto-sustentável. Jamais observei despachos para que o mundo melhorasse em sua ignorância. Nunca vi reivindicarem saúde, alimentação, escolas mais equipadas ou que o nosso ilustríssimo presidente deixasse um pouco de lado as suas medidas provisórias e atentasse mais aos hospitais superlotados. Sinceramente, a única coisa que vejo reivindicarem são os aumentos de salário, isso, diga-se de passagem, apenas para bancários e outros que ganham mais de seis salários mínimos e sempre querem mais. E, quando tudo acaba, as bandeiras são baixadas e o espírito brasileiro da unificação se esvai juntamente com os momentos, que ficam apenas na memória do tempo que, muitas vezes, prefere ser desmemoriado.

Tudo bem, tudo bem, sei que estou de rabugice. Quem sabe uma dessas gripes não me atacou e estou descontente por não ter podido vibrar juntamente com as cornetas nesta Copa?

Apesar de tudo estamos seguindo em frente, com promessas ou sem promessas. Um dia, talvez, seremos todos patriotas de sangue e não apenas de garganta. Claro que existem muitos por aí, e não estou me referindo aos revolucionários, mas apenas no patriotismo interno dos atos – Hitler é um bom exemplo.

Pelo menos, uma coisa é certa: a copa é A COPA e não uma copinha qualquer.

Evoé, Copa, com suas energias que unificam e glorificam o Brasil. Já que a sexta estrela não brilhou no negrume do universo, quem sabe não virá um País melhor?



Escrito por Angel Cabeza às 12:56
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PELAS GAVETAS

Abstrato - Angel Estevez


Revirando alguns guardados acabamos encontrando pedaços de tempo onde estão guardadas coisas, ou que esquecemos ou que queremos que sejam esquecidas.
Abaixo uma pequena série de Haikais livres que deveriam estar esquecidos.


Templo nublado.
Céu nervoso ou
meu coração desesperado?

*

Esta vida eu tiro de letra.
Só não me roubem
a caneta.

*

A vida vai a mil por hora.
E eu aqui neste
imenso engarrafamento.

*

Lua cheia.
O mar é inusitadamente
pequeno.

*

A vida veio vindo
e "foice"
indo.





Escrito por Angel Cabeza às 12:24
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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Angel Cabeza é poeta. Cursou letras, é casado e tem 3 filhas, Homem



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