Angel Cabeza é poeta, cronista e autor dos livros Vidro de Guardados (poemas) e A Beleza do Feio (Crônicas). Cursou letras e preambulou o livro do maestro, cineasta e compositor de Daniela Mercury Dudu Fagundes. Escreve para revistas e jornais.
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Eu havia prometido para mim mesmo que iria pegar leve com essa história de política, governo e derivados; que não iria mais criticar ninguém, pois não quero ter a alcunha de fofoqueiro; e que falaria somente sobre as coisas boas da vida. Estava até me acostumando com o novo ano que entrou pela minha porta sem nada de tão colossal acontecendo, apesar das sirenes antigas terem estourado de tanto berrar, e com a calma que pairou sobre a minha alma – deve ser coisa do “pós-festas” - sobre a questão política, pois, agora que a mini-série JK invadiu a telinha da tv contando as ilustres peripécias do antigo presidente, comecei a simpatizar com esse tipo de coisa. Acho, inclusive, que podemos acreditar em uma luz no fim do túnel, mesmo que esse túnel seja longo. Todavia, como tudo que é ruim engendra papo para a eternidade, quebro a minha promessa e volto a ser o chato crítico governamental.
Quem já ouviu falar em numerologia sabe que o ano de 2006 será regido pelo símbolo do infinito, ou seja, o número 8. Isto quer dizer que o oito trará, em sua síntese energética, muita riqueza, prosperidade, objetivos alcançados e dilemas resolvidos. Mas o Brasil parece que enterrou o pé na jaca, literalmente. A fila de desempregados cresce a cada dia. A passagem de ônibus foi só eu comentar, irá aumentar abusivamente – será que entrei o ano com o pé esquerdo? O salário mínimo, que é vergonhoso, continua rubicundo no bolso dos brasileiros – até querem aumentá-lo para lhe dar uma robustez mais concreta, mas jamais passará de mínimo. E, para completar a festa no “APÊ”, com direito a bunda lê lê, 2006 começa com bomba: a convocação extraordinária na Câmara dos Deputados é extraordinariamente inacreditável. Ninguém aparece nem para dizer um oi. Está como nos filmes de faroeste e suas cidades fantasmas, apenas o vento a uivar e o feno a passar rolando pelo chão. Isso já era esperado no país das cuecas extra largas. O que não se esperava é que os bolsos deles arrecadariam por dia (pelo exercício da função e pelas horas pesadas de trabalho), em suas altivas presenças fantasmagóricas, o equivalente a um salário e meio. Tu sabes o que é isso? É, em uma estimativa geral, o equivalente a 95 milhões, coisa que nem eu nem tu veremos, a não ser que ganhemos na acumulada. Realmente, deve ser extremamente cansativo uma “viagenzinha” para alguma ilha longínqua, um levantar de controle remoto para trocar canais, umas férias de 58 dias e, como alguns acham, um descanso mais que merecido, já que eles também são filhos do homem. Ah!, e também a ajuda de custo auxilia nas despesas familiares, pois alguns se encontram no vermelho. Enquanto isso, o vendedor de água pena de sol a sol para receber algo que eu não sei o nome e para enfrentar a apreensão das mercadorias, simplesmente porque quer colocar a mão na massa.
Alguns preferem doar o extra para instituições e fazer a sua boa ação do ano. Quem sabe ganham um pedaço no céu?
Mas a seriedade também permeia os corredores e há àqueles mais rígidos, que pensam na boa moral e conduta; que zelam pela integridade e caráter das suas pessoas e, quando estão na ponta do penhasco, decidem se dar mais uma chance e mudar a história. Eles abandonaram o barco e voltaram nadando através da intensa maré. Muitos deles desistiram e não querem saber da cesta básica no final do dia. Preferem usufruir o esforço limpo. Contudo, pedem apenas que os outros tenham pena de seus esforços e deixem-nos descansar. Também existem os que não compactuam com essa ajudinha mais que bem-vinda; querem diminuir o recesso e acabar com o presente extra. Claro, claro, por que não? Só que tudo necessita de votação e somente os fantasmas estão circundando por lá. O salão verde da Câmara deve estar rubro de tanta vergonha.
Não nos aflijamos por isso. São apenas águas que passarão. Poderemos até ganhar algum extra com o turismo em Brasília. Não acreditas? Pois deves acreditar, pois a câmara já se transformou em mais um ponto turístico do Brasil. Está tão vazia que de vez em quando alguns turistas passam para tirar fotos. Bem que poderíamos cobrar uma entrada ou, quem sabe, confeccionar cartões postais e comercializá-los nos aeroportos. Assim talvez consigamos lucrar muito mais do que estamos lucrando com os fantasmas no governo.
P.S: ESTOU COM PROBLEMAS PARA POSTAR MENSAGENS. ESTE É O MOTIVO PELO QUAL DEMOREI PARA POSTAR A CRÔNICA.
ESPERO RESOLVER ESTE DILEMA.