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Angel Cabeza é poeta, cronista e autor dos livros Vidro de Guardados (poemas) e A Beleza do Feio (Crônicas). Cursou letras e preambulou o livro do maestro, cineasta e compositor de Daniela Mercury Dudu Fagundes. Escreve para revistas e jornais.

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18/10/2009


Pintura de Salvador Dali – Mundo


POEMA: REENCARNAÇÃO

 

 

De nada valerão os desejos.
A cantiga é sempre a mesma
no velho gramophone
das Eras.

 

 

 

 

 


Escrito por Angel Cabeza às 13:45
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9/8/2009

POEMA & ENTREVISTA

 
 Abstrato - Tânia Cabeza

POEMA - FIM DOS TEMPOS 

Nunca se sabe o peso de uma vida inteira.

Cultivo nuvens para uma velhice

cheia de sol.


ENTREVISTA - PO&SIARTE - ENtrevista Angel Cabeza

Tive o prazer de receber por e-mail a solicitação para uma entrevista feita por Antônio Alves, enviada pelo folhetim impresso PO&SIARTE de São Paulo.
Todos que participam deste folhetim são alunos de Letras.
Abaixo seguem o poema e a entrevista. Espero que gostem.

 

Angel Cabeza é poeta, cronista, músico e compositor. Carioca, cursou Letras, utiliza a Internet como meio de divulgação virtual e assina colunas em jornais impressos.
É autor do livro de poemas Vidro de Guardados e A Beleza do Feio, crônicas.
Fala para o folhetim PO&SIARTE.

PO&SIARTE: Na atual sociedade, onde muitos jovens acabam direcionando a atenção para fora da literatura, como você vê o mercado de poesia e livreiro no geral?

 

AC: Não entendo porque dizem que o brasileiro não lê. O mercado livreiro cresceu 6% em relação ao ano passado. Existem editoras que cresceram absursos. Você entra em uma livraria e não consegue andar de tanta gente. O que existe é estigmatização no mercado. Por exemplo, quando dizem que poesia não vende é mais pelo retorno financeiro editorial do que pelo gosto da arte em si. É a marca que as editoras veem para o produto “poesia”. Muitos jovens produzem poesia, mas não lançam poesia. Por sua vez, as editoras não querem arriscar nos novos autores por acharem perda de capital. Poesia vende muito, temos aí provas como Carpinejar, Adélia Prado. É um erro dizer que poesia não vende e que brasileiro não lê. O problema é as editoras abrirem a cabeça para analisarem bem os originais e perpetuarem a arte maior. Até o início do século 19 nossa maior arte era a poesia. Hoje ela ficou em segundo plano, infelizmente, não pelos escritores, mas pelos editores.

 

PO&SIARTE: E o que você acha da nova safra de poetas e escritores, e da aceitação no mercado?

 

AC: Acho que se cria muito e distribui-se pouco. Temos excelentes poetas, como Eucanaã Ferraz, Angélica Freitas e seu Rilke Shake, ambos pela 7 Letras se não me engano. O problema é que muitos potenciais são abafados pelo mercado não abrir. Também possuímos os que não são tão bons assim, mas isso é uma outra questão. Como dizia Quintana: “Existem dois tipos de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores”. A poesia brasileira jamais morrerá, ela vestirá sempre uma nova roupagem no decorrer do tempo. Lembro-me da geração do mimeógrafo que lançou Chacau, Cacaso e outros. Hoje não há mais mimeógrafo, mas a poesia continua.

 

PO&SIARTE:  Há a Internet, o Blog. Isso ajuda?

 

AC: A Internet modificou a literatura. Arrisco-me a dizer que poderíamos conceituar um novo movimento literário, talvez o “internético” (risos). A Internet abriu portas para pessoas como Clara Averbuck, que publicava seus pensamentos e conseguiu ser uma grande escritora contratada. Temos o poeta e romancista Rodrigo de Souza Leão, entre outros. Até mesmo Saramago já se adaptou ao Blog. Vemos autores se lançarem e alcançarem as tão difíceis editoras através do mundo digital. É globalização. Posso ser lido na Espanha sem fazer muita força. O problema é que você deve se responsabilizar pelo seu marketing e pela sua distribuição eletrônica até que consiga seu desejo. Faça barulho e será ouvido. Entretanto, o marketing maior continua sendo o da editora, a compra de espaço, que custa fortunas. Eu mesmo tenho um Blog e preciso estar anunciando constantemente.

 

PO&SIARTE:  Você já escreveu para vários sites e revistas na Internet. Como é seu produzir poético, mais suor ou inspiração? Existem os que defendem mais o suor do que a inspiração. O que acha?

 

AC: Há aqueles que defendem a poesia como João Cabral de Melo Neto já explicava: catar feijão. Acredito que possa ser como catar feijão, mas existe uma centelha de inspiração. No meu caso, é mais inspiração. Depois que ela aparece, burilo até a última palavra, mesmo assim, sempre acho que poderia fazer melhor. Clarice Lispector dizia que nunca relia seus textos, pois sempre sentiria necessidade de mudá-los. Eu sou assim. Entretanto, por mais inspiração, suor e desejos, você precisa cicatrizar o livro. Muitos livros são terminados pelo simples fato de terem que ser finalizados. Existem poemas que duram anos para amadurecerem.

 

PO&SIARTE:  E o seu primeiro livro, Vidro de Guardados, como traçá-lo?

 

AC: Vidro de Guardados é um livro em que eu não coloquei linha temporal, nenhum fio condutor. Contudo, os poemas não pertencem ao poeta, têm vida própria. Quando releio o material vejo um fio condutor quase imperceptível de lembranças e sonhos; de temores e uma pitada de religiosidade em poemas como Canção do Tempo. Poderia dizer que é um livro sobre memórias, mas prefiro que cada poema tenha um peso filosófico de vida, separadamente. Não tive a intenção de colocar nele um tema, embora me pareça que o tema forte gira em torno da filosofia de viver. São versos soltos que podem se unir em qualquer momento. É a filosofia das coisas simples.

 

PO&SIARTE:  Você se insere em seus textos?

 

AC: Não acredito em cronologias. Todo texto tem a essência de seu criador. Brincamos de Deus, porém, nenhuma criatura se voltará ao Pai. Muito de mim compõe cada verso.

 

PO&SIARTE:  Você também é proseador, mais precisamente, cronista. Qual a diferença entre poesia e prosa?

 

AC: A poesia traz mais vida, a filosofia da vida, dos momentos. Posso ser mais sério, ter mais liberdade, falar do pão, da fome, da morte, da vida, ser enfadonho ou não. Tudo sempre será poesia. Jogar com palavras ou ser objetivamente simples. A poesia, para mim, é um baú de guardados. Nela, sou mais livre, respiro (ou não - risos). Já com as crônicas é diferente, existe uma regra a seguir. Claro, também acredito na função poética da crônica, só que de outra forma. Vemos Rubem Braga utilizando com perfeição a crônica poética e João Ubaldo a prosa entre amigos. A crônica é mais densa, o poema transcendental. No meu caso, acho estar mais voltada para uma conversa entre amigos – eu e o leitor. Vez por outra perco-me nas “poeticidades”.

 

PO&SIARTE:  Seus poemas são bem simples, porém, passam uma filosofia profunda e até fazem os leitores pensarem, como vemos no poema “Telegrama do Oriente”. Essa é a idéia?

 

AC: O poeta é um pintor de pedras. Pego a realidade ínfima, aquela pequenez da alma, momentos de uma fotografia, e pinto de uma forma bela para que todos possam ver. Não acredito em poemas complexos onde fechamos logo na segunda página o livro. Desaprendi o rebuscado e me doutorei em sentimentos. Basta-me uma folha seca para um poema. Uma lágrima é bela e não é necessário nada mais para ser entendida.

 

PO&SIARTE:  Quais autores você lê? E lê muito?

 

AC: Leio mais do que deveria, menos do que gostaria. Releio sempre os mesmos livros, mas sempre navego para encontrar novidades. Gosto de Quintana, Adélia, Ungaretti, Gary Snyder, Brecht, Bukowski, Maiakovski, Bandeira, Drummond, Gullar, e muitos outros. Dos novos, Angélica Freitas, Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz, Carpinejar etc. Em crônica, gosto dos nossos clássicos, Braga, Raquel de Queiroz, Ponte Preta, Ivo, João Ubaldo, Drummond... a lista é grande.

 

PO&SIARTE:  Para encerrar, um verso próprio.

 

AC: Os homens sofrem como as pedras/ cheios de musgo verde/ e caras feias.

 


Escrito por Angel Cabeza às 23:21
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25/4/2009

AUTÓGRAFO
Angel Cabeza

            Não gosto dos bancos nem de suas propostas e gentilezas. O cara por trás do balcão, com aquele sorriso falso de quem não quer nada de você, apenas ajudá-lo, não me convence. Nada me subtrai da cabeça que utilizam o meu suado dinheiro para as diversas e mirabolantes negociações que só os bancos conhecem, enquanto as notas aguardam para serem sacadas.  Obtive relatos fidedignos de pessoas que, de uma hora para a outra, enriqueceram e, subseqüentemente, empobreceram. A explicação é sempre a mesma: um erro de transações sistemáticas abafadas por desculpas. Apesar de tudo, não posso escapar do normal e tenho que abrir uma conta, mesmo sendo uma dor de cabeça. O banco torna-se um aliado prático, paciência, quando não retém o dinheiro na hora em que mais se precisa.

            Precisei fazer uma conta, como disse. Fui lá, sentei, tomei cafezinho, água e sorrisos. Não sei como não me trouxeram uma pizza gigante e um refrigerante de dois litros tamanha era a mordomia e atenção que me dispensaram. Ao final das explicações, chatas por sinal, trouxeram as papeladas, malditas papeladas burocráticas. Como não entendo muito matemática financeira (bancária), nada do que a gerente explicou foi entendido por mim. Levei de quebra uma tradutora para me auxiliar, eu mesmo não assimilei nada. Por isso me embrenhei pelo caminho das letras, embora não saiba de tudo, pelo menos consigo seguir em frente. Depois de explicar os mínimos detalhes sobre a conta, a gerente (era mulher) me pediu o autógrafo, o que fez o meu dia se transformar em um filme de horror.

            Um sol escaldante de verão, a fome batendo, o dia passando e eu lá dentro da agência com cara de poucos amigos. Para começar, autógrafo damos aos leitores e não aos credores. Depois, eram mais de dez assinaturas para findar a transação, ou como prefiro chamar, complicação.

            Logo na primeira assinatura fui interrompido, o meu autógrafo não coincidia com o da minha carteira de identidade. Minha cara de poucos amigos transfigurou-se em de muitos inimigos. Absurdo! Não vêem que eu sou eu na foto ? Um pouco mais enxuto talvez, com um topete e cara de bobo, mas sou eu. Não, não podia ser assim. Fui sentenciado a treinar a minha assinatura antes de completar o preenchimento. Senti-me como um indigente, esquecido por tudo e todos, nem minha assinatura servia mais para provar que eu era eu.

            Treinei muito nas folhas em branco que me trouxeram, como seu eu estivesse novamente no jardim de infância treinando caligrafia. Cada canetada que eu desferia saia uma assinatura diferente. Não podia ser, eu havia desaprendido a assinar meu nome! A gerente me olhava com cara de quem ria por dentro; olhava meus testes e, comparando com a assinatura original, reprovava-me. Desisti depois de ficar minutos tentando. Eu já não queria a conta mesmo. Prefiro guardar no colchão, à moda antiga. Pelo menos eu sei onde as notas ficarão, a não ser que algum rato salafrário ou baratas saiam correndo por aí com elas.

            No fim ainda apelei para o dedão. Por que não colocar no papel a marca de meu polegar? A mesma também estava na identidade e as linhas de minha impressão digital seriam mais parecidas. Foi quando me lembrei que poderia ter engordado um pouco e a digital sairia maior que o normal, sendo confundida com a pata de algum elefante. Tentei mais uma vez as canetas, sem sorte.

            A gerente analisou e deixou para lá. Acho que se cansou das assinaturas. Pediu-me para assinar do meu jeito mesmo, cada papel com uma diferente.

            Finalmente tenho uma nova conta e sou o mesmo homem. Acabei por conseguir parecer outro sendo eu mesmo. Também pouco importa, eu sou eu e todos sabem disto. Falta-me apenas resgatar o que eu tinha antes e treinar a minha assinatura. Já pensou se alguém me pede um autógrafo e sou acusado de mentiroso e plagiador?


Escrito por Angel Cabeza às 10:43
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12/3/2009

DUETO CRÔNICO - duas crônicas sobre pessoas públicas

:: EFEITO BOCHECHA::

Publicada no jornal Objetiva em Foco

Não adianta reclamarem, vou falar novamente sobre política. Quem me conhece sabe que gosto de ficar à margem de assuntos em que cada um tem uma opinião e todos saem ilesos quando nenhuma das partes é subjugada, ou seja, não meto a mão onde muitos gostam de remexer. Na verdade não será sobre política em si, não se preocupem, mas sobre uma mania que atinge 99, 99, 99, 99% (chega) dos aspirantes aos cargos de Prefeito, Presidente e outros.

B.O. ganhou, E.P. ganhou, todos ganharam, mas eu continuo na mesma, televisão, livros e a preguiça que me faz escrever. Foi quando emergi do marasmo por uma retrospectiva da inclinação de Bush ao poder. Entre todas aquelas cenas que tomam o nosso tempo, notei a velha máxima que não se cala jamais: erguer uma criança e beijá-la, sorridente, na bochecha esquerda ou direita. Agora me respondam a esta pergunta política: por que raios todos os que almejam o poder vêm com esta mania, um cacoete ou doença generalizada, de erguer crianças recém-nascidas e beijar-lhes as bochechas num ar misto de fraternidade e imaculação? Não é de hoje que isto é fato, tudo bem, mas o vício político em bochechas é tão grande que ultrapassa os limites da razão. Outro dia mesmo, E.P. (prefiro não citar nomes para não ser maculado e espero que vocês entendam), flanando pelas calçadas da tijuca, cismou de beijar a todos que por lá também flanavam (essas campanhas, sabem?) O pior é que não eram apenas as crianças que recebiam o estalo nas bochechas. A onda seguiu outro rumo. Eram idosas, jovens, seminovos, gente que nem sabia o que se passava e, sinceramente, acredito que até os moradores de rua e alguns cachorros receberam alguns. Por sorte, consegui mudar de calçada. Quase que também fui agraciado com um, que seria o cúmulo do apelo. De duas uma, ou eu me dirigiria até a delegacia mais próxima para registrar um atentado ao pudor ou mandaria E.P. para sei lá onde.

Rabugices de lado, fico a pensar em algumas teorias sobre o efeito-bochecha nas campanhas políticas. Primeiro, tentar arrancar do pai ou mãe um votinho sequer, deixando a marca na querida criança e futura eleitora. Muitos, por tempos, sequer lavarão as bochechas dos seus filhos. Seria como um autógrafo mais interativo. Alguns fazem questão de levar as bochechas de seus pequenos até o candidato. O indefeso não tem nem o direito de reivindicar, sobrando o misto de assombro e choro. Em uma segunda cutucada, posso dizer que os próprios candidatos querem eternizar a sua imagem. Esperam, quem sabe ao crescerem, que aquelas crianças lembrem-se do singelo ato “sem interesses” e doem um voto caridoso em virtude da bochecha beijada.

Não me conformo e pronto! Imaginem se todos aderissem à moda do efeito-bochecha? Poderia eu sair por aí distribuindo beijos aos meus futuros leitores. Quem sabe arrecadaria algum comprador ou adepto para a literatura?

Não, ainda não sou do time das bochechas, digo, dos beijos. Lutarei muito e não deixarei que me ataquem. Entretanto, tenho que concordar com uma coisa: pelo menos ainda são as bochechas as vítimas destes beijoqueiros.

 

:: SONHO ENCANTADO::

Publicada no jornal Objetiva em Foco

 

Sim, eu também queria ser um grande rei em terras brasileiras, com castelo e tudo, súditos, água de coco e nada mais para fazer, se eu pudesse. Disse bem, se eu pudesse. Como o período do reinado já se foi (embora muitos se achem “reis da cocada preta”), não tenho herança alguma e não ganhei na mega-sena, continuo em meu palácio de cimento, neste mundo cheio de picardias e mentiras. Mesmo que tivesse, já arremataram o maior castelo existente no Brasil, que deixa no chinelo qualquer brinquedo do parque temático Disney World e que faria os dragões temerem os seus moradores.

            Não, vocês não estão em um conto de fadas, o que eu gostaria de acreditar; está mais para conto do vigário do que para uma fábula de Esopo, quase surrealista. Eu mesmo não quis dar crédito quando me deparei com a barbárie estampada nas capas das revistas semanais. Juro que fiquei com uma pontinha de inveja daquele castelo. Eu que sou acostumado a castelos de areia (no máximo) queria um daqueles para mim, mas furaram a fila e perdi minha vez. Daria o meu suor, o meu pão e o meu trabalho honesto para erigi-lo, se bem que talvez já estivesse na terra do pé junto quando isto acontecesse, se acontecesse. Contudo, alguns conseguem ter coragem para dar o suor, o trabalho e a força... alheios. Mereciam o óleo do indiozinho de presente no próximo natal.

Está aí, o Deputado Federal Edmar Moreira está mais para um dragão mal intencionado, daqueles que aprisionam as princesas e cospem fogo, do que para o príncipe encantado do final feliz que muitos achavam que ele seria; não chega nem aos pés do sapo que recebe o beijo da linda princesa. Depois de três escândalos em que se envolveu, ainda tem a cara dura de aparecer por aí com um castelo, aliás, deixemos claro, o único castelo no Brasil com estruturas megalíticas inspiradas nos modelos europeus, trinta e duas suítes com hidromassagem e, para as festinhas dos mãos leves, uma adega climatizada com espaço para oito mil garrafas – haja folião e carnaval. Tudo isso e muito mais com um pequeno investimento de vinte e cinco milhões não declarados (quem diz isso não sou eu, mas a justiça). Há quem diga que o castelo ainda seria um cassino, quase batendo Las Vegas, uma vergonha.

Tá, ele até que fez umas coisinhas por aí e ajudou algumas pessoas, mas enquanto de um lado nossas UPAs sequer possuem médicos, do outro multidões enriquecem e esperam o carnaval enquanto as manchetes estampam a grande obra de um deputado que agora é coroado REI com a verba de terceiros; REI dos desvios. Só espero que consigam descobrir de onde estes vinte e cinco cheios de zeros que ele utilizou para erigir o sonho encantado surgiram, e olhem, pelo menos, por aqueles que esperam para se satisfazerem com um cômodo.

Eu continuo seguindo com uma pontinha de inveja, triste pelo fato e pensando em quantos portais dimensionais encontraria naquele castelo ou fantasmas antigos que iriam me assombrar para sempre (tirando os meus, é claro). Acima de tudo, com um temor de tremer os fios dos cabelos, espero que por lá não haja potes com água, pneus velhos e depósitos de lixo, pois poderíamos sofrer muito com algumas centenas de milhares de mosquitos dengosos a mais, mosquitos da realeza.

 

 


Escrito por Angel Cabeza às 19:59
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1/11/2008

CRÔNICA & POEMA

QUADRINHOS
Angel Cabeza

Não é influência americana ou influência dos gibis lidos na infância. Muito menos dos filmes e produções hollywoodianas que ultrapassam a realidade. Não é pessimismo ou falta de esperança, juro. Mas o Brasil está necessitado de heróis mascarados que possam combater o crime a qualquer hora; precisa importar, para o cotidiano, os quadrinhos americanos urgentemente.

Necessitamos de um super-homem, com capa vermelha e tudo (ou melhor, verde e amarela), a prova de balas, a prova de propina, corrupção e, sobretudo, a prova de política, para não sermos tragados pelos vilões que andam soltos por aí. Precisamos de um homem-aranha que, a qualquer hora, possa salvar meninos indefesos e evitar que eles sejam arrastados por bandidos tão novos quanto eles; de um Batman que não meça esforços para se infiltrar no governo e descobrir suas mentiras e seus desvios, seus mensalões e propinas; de uma Liga da Justiça que ajude o mundo a não se autodestruir devastando suas florestas ou acabando com a camada de ozônio.

O Brasil chegou à altura dos bairros onde os famosos super-heróis dos quadrinhos deixavam todos de boca aberta com o combate ao crime. Vivemos em uma Gotham City cheia de Coringas, Duas Caras, Homens de Pedra e bêbados assassinos, porém, não temos heróis mascarados para combatê-los. As máscaras quem usam são os que deveriam permanecer de cara limpa. É a lei do mais forte. Quem tem a arma, vence. Quem tem peito de ferro, ganha.

Deixamos de ser uma sociedade com mocinhas indefesas e migramos para uma população inteira à mercê do improvável. Sair na rua é como estar em um ringue de vale-tudo ou campo de guerra. Quando menos se espera, levamos um hematoma para casa. Se não físico, emocional. Tememos pegar um ônibus, passear no shopping, levar nossas namoradas para um passeio debaixo da lua. Até as pequenas coisas, como comprar o pão e o jornal diários, sucumbiram ante o susto da vida. Como confiar no padeiro ou no jornaleiro? Como confiar em um bom dia entoado alegremente? Nossos filhos já não estão mais seguros. Os filhos de nossos filhos jamais saberão o que é jogar bola em um domingo ensolarado, na rua aberta.

Não preciso abrir o jornal para decretar: estamos chegando ao fim dos tempos. E não sou apenas eu nesta afirmativa. Muitos estão convictos de que o apocalipse está aos nossos olhos, vagaroso, como um tigre a espreitar os mais fracos. A qualquer hora, o bote será aplicado. Aliás, o bote já foi dado, só que não publicamente.

As trombetas estão soando aos gritos dos inocentes. Os arrebatamentos acontecem em qualquer lugar, com qualquer um, basta atentar aos noticiários para comprovarem que o arrebatamento é sem escrúpulos. Foi-se João e ficou Maria.

Já tentamos, e acho que ainda estamos tentando, de tudo. Nem os poemas entoados pelos grandes poetas adoradores do Rio de Janeiro fazem mais parte do cartão postal. Nossa metáfora é outra.

Tentamos, mas ainda falta. Falta-nos importar um Quarteto Fantástico que esteja disposto a enfrentar a máfia; um Aqua-Man disposto a limpar nossas baías; até mesmo um Jhonny Q´uest ou um Fantasma, que largaram suas tristes vidas simples, sem superpoderes fenomenais, e ingressaram no combate ao crime, ou vocês acham que o Batman foi sempre o bom moço da história, indestrutível? A diferença entre eles e os nossos é que eles se revoltaram contra as engrenagens mal polidas e fizeram tudo do seu jeito. Se continuassem calados, estariam sendo coniventes. Tiveram a coragem de se autotreinarem e dizerem chega. E isso é o que o Brasil necessita; de policiais batmans, de seguranças homens aranhas, de políticos íntegros como o super-homem, de heróis que gritem CHEGA! Não que eu esteja defendendo o estrangeirismo, mas, pense bem, a qualquer hora, poderíamos sair na rua e, ao sinal de algum vilão, o batsinal seria acionado para que rapidamente nossos problemas acabassem.

Ah!, quero o cessar das trombetas; quero rever as ruas de domingo cheias de bola e pipas; quero de volta as metáforas azuis dos poetas do Rio de Janeiro e não mais ver as imagens de “Durango Kid” que assistimos no jornal da noite após um dia inteiro de assombros.

 


Escrito por Angel Cabeza às 15:28
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30/9/2008

É com saudades que retorno ao blog.
Quase um ano afastado, mas em grande atividade.

Para quem não me conhece, prazer.
Para quem já conhece, que bom revê-lo.

No final deste ano e início de 2009 deve estar saindo o livro "Bíblia Infantil", pela editora Geográfica.
Os textos para esta bíblia infantil ilustrada foram escritos e adaptados por mim.
Espero que o resultado agrade a todos.

Voltando ao que normalmente conhecem, seguem abaixo dois textos para este mês.

Abraços a todos.

 

.: CRÔNICA :.

Foto Publifolha - Dorival Caymmi

 

 

Eu queria ser dorival caymmi

 

Em memória do querido Dorival

 

O dia entrou triste, lânguido, pálido; ficou meio nublado, sem pássaros. A noite apareceu sem estrelas, negra. E a semana correu no mesmo estilo, sem sal.

É que Dorival Caymmi foi bater a porta de São Pedro recentemente. Foi compor o quadro dos funcionários musicais que por lá são responsáveis pelo coro dos anjos. Deixou para nós, seres que ainda não se imortalizaram, um buraco, o silêncio. A música brasileira perdeu um dos seus inestimáveis troféus.

Eu queria muito, muito mesmo, e roubando a cena de Victor Hugo, queria ser Dorival Caymmi ou nada. Queria, com bigodinho bem penteado e tudo.

Tenho inveja de sua pessoa. Uma inveja saudável, dessas que não deixam olho gordo.

Fico a pensar como deve ser bom espalhar-se em cima de uma rede, trançada a mão com a delicadeza de quem tece com fios de ouro, e me espreguiçar sem culpa, sem preocupações (a não ser as comuns de todo artista), sem nada debaixo do meu chapéu para pensar e, como companhia, a natureza ao redor e o pensamento perdido nas vastas belezas tropicais; sentir o cheiro das folhas úmidas de lágrimas divinas e compor, quem sabe, sambas inocentes para meninas apaixonadas.

Ah, Dorival, nunca tive o privilégio de conversar contigo. Você, que tem algo de Jorge Amado no semblante, jamais soube da minha existência, do meu querer. Apesar de nós dois estarmos no mesmo barco praticamente, pois como cronista também revelo, de forma cotidiana, amores e desesperos, nunca cruzamos caminhos.

Eu invejo a vida de um sambista de alma. Uma inveja saudável. Queria, sim, compor algum samba inédito enquanto o Brasil vai se movendo lentamente na sua imensidão geográfica e eu, passeando pela Bahia, seria o único a rir de tudo, pois só me bastaria o céu. Mas ainda não cheguei lá.

            Onde estiver, Dorival, não se chateie com a minha sincera vontade. Ela passa. Só não passará a saudade de muitos brasileiros que, como eu, se transportavam aos cenários que você pintava tão bem em suas músicas. Vá, mas sabendo da falta que você faz.

Esta semana entrou triste, lânguida, pálida. Mas eu tenho certeza que lá em cima o dia abriu seu sol de ouro.

 

(Angel Cabeza - Crônica publicada no jornal Prisma, agosto 2008)

 

 

 


Escrito por Angel Cabeza às 14:52
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29/1/2007

POEMA & CRÔNICA



:: O MUNDO ESTÁ ACABANDO ::

Estive fora por alguns dias. Aliás, alguns é eufemismo. Estive fora mesmo foi por meses. Fora de tudo, política, economia, cultura. Foi como se eu estivesse em um exílio interior, viajando por lugares aonde o mundo moderno e agitado jamais chegaria. Desliguei-me dos jornais, das notícias, das televisões e de tudo o mais. Estive fora até de mim. Tem horas em que você deve fazer uma lavagem mental e esquecer de tudo, até de seu nome. Só me faltou subir a uma montanha e meditar com monges, acima das nuvens.

Tirei umas férias longe da civilização letrada. Contudo, até o mais calmo dos ambientes enjoa. E enjoei de estar fora de tudo. Regressei ao mundo plano a que faço parte e me recompus com tudo o que há de mais complexo: a vida.

Ao voltar, respiro tudo o que perdi nestes meses de exílio. Os pulmões sentem falta das atividades diárias, dos barulhos e dos vícios modernos. Respiro e logo de primeira instancia fico sem ar. Não queria, juro que não, afirmar, mas o mundo está acabando e esta é uma grande e irrecusável verdade. Todas as profecias estavam certas. Nostradamus, a Bíblia, Gentileza, todos estavam absolutamente corretos. Chegamos à era do apocalipse, definitivamente.

Concluo isso após o caso de um novo, cômico e sério tipo de roubo que está afligindo o nosso querido Rio de Janeiro e suponho todos já saberem: de cabelos. Era só o que faltava, já nos roubam luz, água, telefone, dinheiro, privacidade e, agora, os cabelos. Foram dois casos de cabelos roubados. Os ladrões agarraram os rabos de cavalo das moçoilas, passaram à tesoura e saíram correndo com as madeixas balançando. E as mulheres, sentindo-se violentadas – é ou não é uma violência para a mulher arrancarem os seus lindos coques ou seus rabos que demoram anos para crescer? – nada podem fazer, pois tudo é tão rápido que quase não se vê. Se antes estávamos com medo das armas de fogo, agora temeremos os barbeiros e salões de beleza. Será um trauma ir ao cabeleireiro para aparar as pontas ou tosquiar tudo de uma vez.

 Antigamente, ficava-se careca de preocupação, de velhice. Hoje, fica-se careca porque o desemprego está alto e, para ganharem algum, nos roubam as madeixas. A abordagem do assalto antigo era o grito de “passa a bolsa”, sem opções para a vítima. Hoje não, você tem as opções “passa a bolsa” ou “passa o cabelo”. Estou até pensando em batizar esse tipo de roubo de “roubo escalpe”. Nem nossas cabeças estão mais seguras. É ou não o fim do mundo?

O pior é que ninguém sabe se é uma quadrilha, uma gangue internacional, gangsteres ou algum careca que, por raiva de não ter cabelos sedosos como os das mulheres, ou melhor, por não ter um fiapo sequer, está arrancando os dos outros. Quem sabe o Valério?

Enquanto o mundo estiver sucumbindo com suas pragas sem solução, é obrigatório o uso de bonés da porta de casa para fora. Eu já estou adquirindo o meu. Não quero ser pego de surpresa por algum larápio e, sem sentir, meus cabelos virarem peruca para aquecer a cabeça de alguém por aí. Outra sugestão é fazermos um “seguro-madeixa”, assim, quando nos roubarem, poderemos repor os fios perdidos junto ao órgão fiscal de cabelo privado. O ruim vai ser quando você for repor o seu cabelo preto e só tiver louro ou branco.

Definitivamente, o mundo está acabando. Até agora eu ainda não acreditei nos ladrões de cabelo, mas... As pragas estão aí e não temos como contê-las. Pelo menos defendamos nosso espaço com unhas, dentes e cabelos.


obs: tive alguns contratempos que impediram uma atualização mais rápida. Deixo aqui meu pedido de desculpas a todos.


Escrito por Angel Cabeza às 21:26
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9/12/2006

TRISTEZAS ENCANTADAS

ANGEL CABEZA

Pintura de Klee




Escrito por Angel Cabeza às 22:11
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O SEGREDO DO AMOR

ANGEL CABEZA

Moça com ventarola
Pintura de Gauguin



Nunca vi acontecerem tantas rupturas afetivas, em tão pouco tempo, como hoje em dia nos são apresentadas por meio das mídias televisivas. Digo rupturas afetivas porque podem existir outros tipos de rupturas, como de ligamentos, de salários, rupturas políticas, entre outras tantas que poderiam ser relatadas aqui, mas tomariam muitas páginas e cansariam a bela imagem mental dos leitores. Estas de qual falo, as rupturas afetivas, popularmente conhecidas como desquites, tomaram as páginas dos meios de comunicação e impressionam, desde as antigas senhoras em suas poltronas de couro antigo até os nossos modernos rapazes e moças, tecnologicamente avançados.

E não são apenas os desquites de cunho casamenteiro que estão perambulando livremente por aí. Também existem os desquites entre namoricos, entre noivos, entre affairs, e todos assim, como um flash, ou relâmpago, que não deixa vestígios. Basta que liguemos a televisão para que nos seja jogada uma bomba semanal sobre algum casal que, subitamente, se esvaiu entre abraços e beijos eternizados. Em quantos dias mesmo? Uma semana! Basta que saiam estampados, fulgurantemente, nas capas das conceituadas revistas de famosos e pronto, dias depois já não trocam mais elogios, mas buracos em meio às estradas do coração. Será que existe alguma maldição em torno dos fotolitos ou das páginas a quatro cores que permeia a vida conjugal dos chiques pombinhos? Qual será o segredo do amor?

Peguem algumas lembranças antigas, guardadas nos velhos baús dos avós, pais, principalmente, as pretas e brancas e comprovem: o amor antigamente tinha um tempo maior de ação. Não eram necessárias bulas e manuais. Muito menos, existiam contra-indicações para dosagens mais altas. O altar era uma nuvem alva para os dias de sol dos casais. Quando, subitamente, chovia, bastava que se protegessem embaixo de alguma marquise ornada por eles mesmos onde as gotas que escapavam fariam com que rissem de alguma coisa esquecida. Estavam ligados até o padecer do corpo, pois as almas estariam para sempre unidas.

            Ao serem indagados por quanto tempo neste mar de paixão, o susto: eternizados por trinta e cinco, quarenta, até cinqüenta anos consecutivos sem uma separação ou cogitação de cada um seguir para um outro lado.

            Séculos são séculos e devem ficar para trás, junto com a poeira das lembranças. Mas dava gosto admirar os casais, velhinhos, trocando carícias e beijos encabulados, simples, apaixonados, como duas crianças sem nenhuma maldade. Isso era a realidade amorosa dos anos dourados. As casas eram iluminadas. As paredes tinham ouvidos. E por mais longa que fossem as salas, os quartos e corredores, os corpos estariam na proximidade do pensamento. Quando um se sentava no sofá para assistir algo ou apenas descansar o outro, instintivamente, sentava-se ao seu lado, aparando levemente com os ombros a cabeça que era baixada pelo sono. Ao se esbarrarem na cozinha, juravam que aquilo já tinha acontecido, coisas de amores de outras vidas. Eram feitos um para o outro. Em sonhos, se encontravam para um passeio além mundos. É certo que se viam pouco, o que era bastante útil para o relacionamento, uma vez que o homem tinha o dever de proporcionar à sua amada os prazeres de uma vida tranqüila, sem problemas, e com o máximo de afeto possível. Mas fosse o que fosse, a mulher esperava ansiosamente o seu amado, transbordando de saudades como se fosse morrer caso ele demorasse um pouco mais do que o normal. A saudade estava até mesmo pelos cômodos da casa, cômodos grandes, espaçosos, amplos de sentimentos. Bastava que se tocasse em alguma parede para se despertar o sentimento.

Hoje está tudo diferente. Foi-se o tempo das coisas sublimes. O passear pelos jardins e praças, arte que só os amantes dominavam bem, não existe mais. As mãos dadas, o brilho nos olhares recônditos do casal, sinal de uma relação eterna em que eles queriam, mas não ultrapassavam o sinal vermelho, a timidez e os sorrisos sem espera dissolveram-se. Os sorvetes que eram consumidos a dois, que marcavam para sempre a lembrança, e os beijos que eram dados cuidadosamente na maça do rosto, quase como uma brisa leve de verão, também foram abolidos. Nada existe mais nas horas dos amantes. As fotos são coloridas e não guardam a eternidade nelas.

A modernidade trouxe benefícios, admito. Mas também trouxe com ela atrofiamentos. E o atrofiamento dos sentimentos foi o mais prejudicial deles. O contato pessoal que nossos antepassados tinham foi esquecido. As fotos estão cada vez mais rasas e solitárias. Basta um flash e, no dia seguinte, uma pedra aparece no meio do caminho. Contudo, é preciso conviver com as pedras do caminho e saber moldá-las em sonhos. Esse é o ponto chave.

Mas como eram belas as casas antigas, iluminadas, grandes na sua pequenez interna. Atualmente, tudo é compacto e está à mão – e eu até gosto em alguns poucos aspectos.

É isso! O segredo do amor está é nas casas. As amplas casas de outrora produziam a saudade perene dos corredores intermináveis e da ausência sentida, perdida pelos sofás unificados e rostos que se contemplam cotidianamente.

Casas amplas e saudosas, esse é o segredo do amor.


:: AGRADECIMENTOS ::

Fui surpreendido pela publicação de minha crônica “Seis Estrelas” e do meu texto sobre Quintana no Blog “Coluna Cultural Telescópio”, do jornal eletrônico “Telescópio”, do Editor Everi Carrara

Visitem o jornal em http://telescopio.vze.com e o blog em http://telescopio.blog.terra.com.br.


Escrito por Angel Cabeza às 22:05
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A DANÇA SIMBÓLICA DE LUCIANO BONFIM


ANGEL CABEZA




Escrever literatura em um país que “quase” não lê literatura é uma tarefa árdua. Muitos ficam pelo caminho. Outros entram na miragem do deserto literário e jamais retornam. Escrever é padecer de suas palavras. Escrever não é um dom, mas um trabalho em que poucos são destacados e muitos são crucificados.

Uma vez perguntei a um professor de literatura o que era conto. A resposta? “Tudo o que você quiser chamar de conto”. Estranhei a mesma, mas, na época, eu ainda era muito jovem e havia começado a ler os modernistas. O mesmo havia dito que os meus poemas eram fragmentados e que não tinham peso literário. Ri e dei as costas. Cada filho, por mais feio que seja, é amplamente amado. E é deste amor que nasce a dança simbólica de Luciano Bonfim.

Já o tinha retratado em “Beber Água é Tomar Banho por Dentro”, excelente livro de poemas. Agora, nesta outra obra sua, “Dançando com Sapatos que Incomodam”, pude constatar que Luciano irrompeu as barreiras da literatura, especificamente do conto.

Quando falamos em contos, imaginamos textos com mais de seis páginas, imagens, linhas temporais, células dramáticas, etc. Não, nada disso se pode esperar de Luciano, mesmo porque os contos não estão na sua fôrma, mas na alma. Luciano teve a coragem de se sobrepor ao clássico e recriar, em linguagem própria, os seus próprios métodos textuais. Não direi experimental, pois tudo, por mais experimental que seja, tem o seu valor literário. Entretanto, em um destaque a parte, o autor foi extremamente inventivo e condensado. Um livro de contos que possui apenas 50 páginas e 29 micro-contos é um romper de barreiras e form

“Dançando com Sapatos que Incomodam” é um livro cheio de símbolos e imagens. Provindo da literatura Cearense, retrata de forma clara e direta muitos dos problemas sociais e familiares do Nordeste, como a seca, os duros dias das famílias pobres e a falta de emprego, principiando pelo título do livro. Ao folhear suas páginas encontram-se pedras e terra em contos como “Sina”: “...as caminhadas até o poço atrás de água...” ou “...a fome, a ida pra roça levando o “de comer” e o “de beber ” para os trabalhadores...” ou em passagens como: “... Meus irmãos, Dagoberto e Felismino, quiseram conhecer outras faces não tão secas... outras lastimações...”.

Distorcendo as linguagens formais, clássicas, dos contos tradicionais, o autor optou por estar mais perto da realidade dos fatos, aguçando os ouvidos dos leitores com diálogos onde a regionalidade, muitas vezes, permeia suas passagens, como lemos em “Na Brevidade Das Fugas”: “...vai morrer feladaputa! “Fez arrumação” de partir pra mim. Antes de ele se levantar lhe plantei três facadas...”.

Entretanto, além do social e da vida dura no chão do nordeste, mais diretas e desmascaradas, Luciano consegue incluir em muitos contos pensamentos mais filosóficos, que fogem do social e criam um ar transcendente nos textos: “Existem mundos destruídos pela imensa vontade de os preservarmos” ou “Toda prisão é dentro da liberdade”, também voltada à questão social (livres, mas presos na realidade dura da região onde sobrevivem).

“Dançando com Sapatos que Incomodam” é um livro misto de dor, alegrias, subjetivismos e, em alguns momentos, de poesia. Luciano não só se revela um crítico social, denunciador, mas um contista subjetivista e escultor, que talha os padrões normais, recriando tudo a sua maneira, a seu olhar; é um livro que denuncia, sonha e faz literatura, subjetividade do mundo.
Luciano Bonfim é graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará, e professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú. Publicou: Janeiros Sentimentos Poéticos – poemas; Beber Água é Tomar Banho por Dentro - poemas. Tem conto no Almanaque de Contos Cearenses (ed. Bagaço, 1997) e na revista CAOS PORTÁTIL (2005 e 2006).
Escreveu para o teatro “As Mulheres Cegas” (premiado no Festival de Teatro Amador de Acopiara-Ce/2000), Auto do menino Encantado e o Jabuti e o Gigante (premiado no Concurso Domingos Olímpio de Literatura - 2005).

Dançando com Sapatos que Incomodam
Luciano Bonfim
50 páginas
Edição do Autor
contatos com o autor e compras:
luciano.bonfim@yahoo.com.br


Escrito por Angel Cabeza às 21:48
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5/11/2006

MINHA PRIMEIRA VEZ

Pintura de Miró





Finalmente o site

É com prazer que convido vocês a visitarem o meu site, criado recentemente.
Nele, vocês poderão conferir um pouco mais sobre mim.
Visitem o www.angelcabeza.oi.com.br

MINHA PRIMEIRA VEZ

Angel Cabeza

Resisti ao máximo para que não acontecesse comigo. Sou daquele que não me importo em dizer com quantos anos eu tinha começado; feito. Não, até hoje nunca tinha feito. Não sou do tipo que se enobrece com feitos deste gênero. Tinha era um temor, um exaspero profundo, só de pensar que poderia, algum dia, pisar no metal frio e ser erguido como pluma ao lado dos pássaros. Entretanto, certas coisas devem, e precisam, acontecer. É o tipo de situação em que não há volta, ou você se joga do décimo andar ou você enfrenta o seu oponente. Achei mais sadio enfrentá-lo, mesmo contra a minha vontade.

Era a minha primeira vez em um avião. Nunca havia entrando em um, nem para conhecer. Nunca havia pisado em um aeroporto, nem para comprar aquelas bugigangas caríssimas que por lá são vendidas. Precisei ir e pronto, sem saudade, sem um reconhecimento de campo, sem treino, sem lamentação e sem o grito de socorro que normalmente é expelido pela garganta. Fui sem olhar para trás.

Desde o dia anterior a minha viajem fiquei a imaginar as horas perturbadoras que eu passaria dentro daquele boing, daquela caixa de metal mais pesada que um carro e mais leve que uma pena. Pensava em fugas mirabolantes e até mesmo no imprevisível. O que fazer caso aquilo despencasse? Lá ia o cronista se esborrachar em alguma planície verde, bem patriótica. Quem sabe um pára-quedas? Por que não? Se os navios possuem os seus botes salva-vidas para caso afundem, por que os aviões não podem ter os seus pára-quedas para uma emergência?

Suposições. Nós sempre geramos suposições quando algo de anormal começa a espreitar a nossa alma. Quando mais jovem, eu sentia um pavor grande do trem fantasma, até entrar nele e descobrir que tudo era feito de um trapo que nem te conto. Com o avião é diferente. De lá, eu poderia jamais voltar.

Tudo bem, exagero ou pessimismo, mas, para mim, não, com certeza não era. Eu fui, sem olhar para trás. E eu ia, ficando. A cada passo, entrando naquela rampa escura que levava ao interior da nave, lembrava-me da entrada das montanhas-russas. Até o cheiro me lembrava o parque de diversão e a montanha que eu, até hoje, temo. Sou uma pessoa da terra. Do céu, já me basta a chuva. O resto é para os pássaros.

Entrei como quem entra em um campo inimigo. Sentei-me, precisamente, à janela. E logo eu, que nunca tinha voado, sentei-me à janela. Aqueles barulhos de motor sendo ligado e os sinais luminosos começando a aparecer me fizeram crer que Dummont só poderia estar com algum problema quando inventou o Quatorze Bis. Onde já se viu, pequeninos que nós somos esvoaçando por aí feito àqueles super-heróis dos desenhos. Entendam, somos destrutíveis.

Morrer de medo de avião é uma coisa, ter pânico é outra. Mas o que eu tenho mesmo é “aviofobia”. Quando aquelas asas se envergaram e as poltronas se inclinaram para trás, apertei o mais forte que pude o meu sinto – como se ele fosse o meu último recurso de sobrevivência – e senti o meu estômago reagindo ao descer da montanha russa, enquanto eu subia lentamente, como se aquilo nunca fosse acabar. São minutos ruins, mas todos eles são compensados quando você está planando por cima do paraíso que existe além terra. Após subir, parecia que eu havia finado e estava do outro lado, no céu. Era tudo uma grande calmaria. Não havia nenhum tipo de interferência sonora, apenas o azul celestial e as nuvens brancas sob meus pés. Agora entendo o quão felizes são os anjos, pois estão naquela brancura eterna de Deus. Uma brancura tão intensa que chega a cegar os olhos. Ali, eu poderia escrever quantos fossem os poemas sem a interferência do homem. Poderia amar e ser amado sem os olhares obtusos dos invejosos. Ali, eu estaria em sossego com algum anjo; em sossego comigo mesmo. Se morrer é estar neste paraíso, serei o primeiro da fila.       

Horas se foram e o avião tornou a inverter meu espírito, pousando em terra firme e fazendo-me retornar ao corpo, para o meu alívio.

Ao desembarcar, fiquei com a estranha sensação de ter visitado o paraíso acima de nossas cabeças; de ter passeado por um momento em algum pedaço do paraíso, por onde somente os realmente fortes conseguirão passar.


Escrito por Angel Cabeza às 16:27
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30/9/2006

ATENTADO

ANGEL CABEZA

PINTURA DE PAUL KLEE


O técnico, perdendo o jogo para o time do Irã, solicita a Temério, jogador reserva, que entre em campo e mostre porquê é chamado de “pés de chumbo”.

– Temério, chegou a hora! Vá lá e mostre para eles o que é futebol, está escutando?

– Estou. Posso beber um pouco d’água antes?

– Que água nada! Vá lá e faça com que eles percam bastante água.

– Mas eu preciso trocar a chuteira, pois est não me dá sorte.

– Use esta mesma, está ótima. E sorte eles é que precisarão.

– Mas, mas... O senhor sabe que não é assim!

– Temério, anda, eu já pedi a saída do Josevaldo.

– Peça para ele esperar um pouco mais.

– Não posso, Temério, o jogo está paralisado esperando pela sua entrada.

– Mas eu preciso colocar a camisa branca. Esta vermelha está me incomodando.

– Temério, pelo amor de Deus, use esta camisa e vá logo. Nós não estamos em uma tourada, mas em um JOGO DE FUTEBOL!

– Deus? Deus não. É Alah!

– Temério, você está ficando maluco? Tanto faz quem esteja olhando por nós. No mínimo, já deve estar ficando nervoso com tanta demora.

– Posso ir ao banheiro antes? É que me deu uma dor de barriga.

– Temério, o que é isso? Dor de barriga? Não me diga que você está com medo?

– Medo, eu? Claro que não! É que eu estou querendo me precaver. Posso colocar o amortecedor de impacto a prova de balas por baixo da camisa?

– Amortecedor do que? Bem que eu sabia. Está é com medo de entrar no jogo. Você não se garante? E os seus “pés de chumbo”, ora?

– É só uma alcunha.

– Eu sei, mas você a adquiriu por causa dos 800 gols na copa. E aí, hein, hein?

– É, mas agora é diferente.

– Diferente o que Temério? Meu Deus, eu estou perdendo a paciência.

O juiz começa a chamar a atenção do técnico e de Temério, solicitando que ele entre em campo. Os jogadores do time rival já começam a demonstrar impaciência, também solicitando a sua entrada, para desespero de Temério.

– Está vendo? Eu disse que era para dizer Alah e não Deus.

– Temério, isto não importa. O que importa é que você precisa entrar em campo, sem beber água, sem trocar a chuteira, sem mudar a camisa, sem ir ao banheiro e sem colocar este tal amortecedor. E já!

– Ah, mas o capacete eu vou colocar, sim. Não adianta, colocarei e pronto!

– Capacete? Isso não é futebol americano, Temério.

– E se alguma bala perdida vier a me atingir?

– Bala perdida? Que bala perdida? Se você não entrar agora quem vai dar tiro aqui sou eu!

– Mas o senhor não está entendendo, é muito perigoso entrar assim, de súbito.

– Perigoso o que Temério? Pelo amor de Deus, entre já!

– Está vendo? Você está provocando. Depois quem se ferra sou eu.

– Provocando o que Temério?

– O time adversário.

– E o que é que tem o time adversário? Até agora, pelo que eu sei, eles estão é com muita sorte. Precisamos virar.

– Eles são Iranianos!

– E daí Temério, qual é o problema?

– Ué, o senhor não lê jornal? Não escuta noticiários? Tudo está se acabando. É o fim do mundo. Os atentados estão embaixo dos nossos olhos.

– Temério, isso é apenas um jogo de futebol, FU-TE-BOL, entendeu?

– Sim, mas e se algum deles estiver com uma bomba embaixo da blusa? Pode haver homens-bomba no time adversário. Tudo está um horror! Outro dia mesmo eu ouvi que um homem se explodiu matando...

– Temério, cale a boca e entre! Quem vai acabar cometendo um atentado aqui sou eu!

– E a bomba?

– Que bomba Temério?

– Ué, a bomba que eles podem ter colocado dentro da bola?

– Bomba? Bola? Acho que esses noticiários não estão lhe fazendo bem.

– E quando o senhor disse meu Deus, não viu?

– Não vi o que?

– Como eles olharam para o senhor?

– Olharam como?

– Como se tivessem colocado veneno na água do nosso time. Já pensou como seria um atentado desse nível?

– Temério, pára com isso. Você está me assustando.

– Não disse. É isso mesmo. Ontem eu li que morreram não sei quantos dentro de um estádio. E de futebol!

– Vamos parar com esta brincadeira e entrar em campo?

– Não é brincadeira. O senhor precisa ver os noticiários. Aquilo lá está uma guerra que só vendo.

– Temério, se você não entrar em campo poderemos perder.

– Mas é melhor perder o jogo do que o pé, o braço, a cabeça.

– Credo, Temério, que coisa. Entra logo e vamos embora.

– E as minas?

– O que é que tem as minas?

– Ué, pode ser que eles tenham colocado minas na grande área. Aí, quando eu estiver quase fazendo o gol, BOOOM, saio voando pelos ares.

– Temério, não existem bombas no campo.

– Mas e a bola?

– Que bola?

– A bola do jogo, ora.

– O que?

– Ela pode guardar uma bomba por dentro, esperando apenas por um chute, um chutinho só que seja, para mandar para o além o jogador e até mesmo o goleiro.

– Temério, pára com isso, assim você está quase me convencendo.

Temério é empurrado pelo time e puxado pelo juiz para dentro do campo, de onde, a cada jogada, fazia gestos para o técnico, como se estivesse insinuando alguma coisa.

 E ninguém entendeu quando o técnico se jogou no chão, rolando para trás dos bancos com um pedaço de ferro na mão, assustado com o estrondo dos fogos em comemoração ao gol de Temério.


Escrito por Angel Cabeza às 20:13
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20/8/2006

DANÇA PARA TRÊS: DOIS POEMAS E UMA CRÔNICA

ANGEL CABEZA



Guarda-Chuva - Pintura de Magritte


.:OS PERDIDOS:.

Onde será que vão parar os guarda-chuvas perdidos? Todos eles, amarelos, pretos, floridos, alguns que parecem barracas de água de coco e possuem uma ponta enorme de furar olho. Onde estão? Será que existe algum lugar, além de nossa compreensão, recôndito no universo, que abriga estes eternos objetos da vida moderna quando os perdemos? Esta, sem dúvida, é uma pergunta difícil de se responder.

            Nunca gostei mesmo dessas barracas! Servem apenas para fazer volume entre os pacotes e envelopes diários. Quanto à chuva, não sou feito de açúcar e posso me umedecer um pouco. Mas não pense que eu nunca possuí esse tipo de “adorno”, não. Eu, como diversas e diversas pessoas neste mundo oval, já fui segurança inestimável dessas aranhas pretas. Se eu for contar quantos, diria uns trinta. Se me perguntar se ainda os tenho, lhe direi, meu caro amigo, apenas um. Como? Ficaram por aí, em bancos de praça, ônibus, escritórios, hotéis, restaurantes; alguns, pernetas, foram internados; outros joguei fora de tanta raiva contida, pois há momentos em que somente delongam a tempo. E ainda existem aqueles automáticos, que quando você está na fila do banco, matutando em suas contas, disparam fazendo um barulho enorme e abrindo bem em cima do cidadão à frente.

 Também não gosto dos que possuem as hastes dobráveis, pois, ao menor sinal de um furacão, viram do avesso e nos abandonam para saírem voando pelos céus.

            O complicado é quando a necessidade faz com que peguemos um guarda-chuva emprestado. Tudo que é alheio jamais será de alheio de novo. Nessas horas, com certeza, será o vizinho ao lado ou um amigo o responsável pelo empréstimo. E empréstimo é coisa séria, tem que ser restituído. Aí, pelo menos eu, policio-me para não perdê-lo. Agarro-me ao cabo como se fosse levantar vôo juntamente com ele. Amarro fitinhas no meu pulso, ligando-o ao meu corpo. Todavia, minha memória acaba falhando e acabo perdendo-o. Neste momento, o sentimento de culpa prevalece. E se a pessoa o ganhou de um ente querido? E se carregar inestimável valor sentimental? E se for uma última lembrança pós-falecimento? Seu dono nunca mais será o mesmo. Para ajustar as coisas, compro um parecido. Se for da cor preta, comprarei na mesma cor, claro. Mas, e se não houver mais, o que fazer? Compro um cinza escuro, ora! E, em meu silencioso e pálido rosto de amigo-cínico, quando o seu dono perguntar-me porque a cor mudou se o dele era preto, irei responder, com um sorriso agradecido, que desbotou devido à chuva forte. Coisas de guarda-chuvas de segunda.

            Há momentos em que precisamos fazer um escambo de muita necessidade, evidentemente. Principalmente, quando você está cheio de documentos importantes e, subitamente, uma chuva densa e grossa parece desabar do céu em sua cabeça, justamente para lhe ensopar os papéis. Nesta hora, você começa a negociar tudo que tem de valor em troca de um apara-chuvas. Porém, quase sempre não há necessidade – eu mesmo, de vez em quando, carrego um comigo e não o utilizo.

            Mas há uma incansável curiosidade minha sobre onde irão parar estas barracas quando esquecidas. Você não tem esta mesma e intensa curiosidade? Experimente esquecer um deles em um restaurante, sair após pagar a conta, obviamente, caso contrário, você acabará levando uma guarda-chuvada, e lembrar-se que o esqueceu em menos de 40 segundos. Quando voltar para procurá-lo, ele não estará mais no recinto. E o pior é que nenhum dos garçons, garçonetes, copeiros, cozinheiros, ou mesmo os donos do restaurante saberão sobre. Aí é que está o mistério da vida: para onde irão os guarda-chuvas perdidos?

Caso você descubra, caro amigo, remeta-me uma carta solucionando esse mistério, porque, até o momento, a única solução que temos está na resposta do velho poeta: “Vão parar nos anéis de Saturno”.

 

(Crônica publicada na revista BULA, em 2005, por Angel Cabeza).


Escrito por Angel Cabeza às 21:08
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9/7/2006

SEIS ESTRELAS



Eu não entendo nada de futebol, confesso. Sou o tipo de brasileiro que não liga muito para essas coisas de bolas, homens correndo e gols emplacando pontos, se é que existem pessoas assim. Nem parece patriota, deve estar pensando. Concordo, plenamente, com o teu lúcido pensamento. Mas é que sou uma pessoa não muito acostumada às peladas (não entenda outro tipo de peladas) que acontecem por aí. E olha que eu jogava futebol quando garoto. Pegava um blusão amarelo, um short azul, um tênis qualquer e ia para o gol imaginário feito com chinelos – na rua – me sentindo um Taffarel, ou para o campo de asfalto – raras vezes – me sentindo um Bebeto. No máximo, conseguia arrancar um uhhhh alongado da platéia quando jogava. Parei por força do destino, depois de ter levado uma cotovelada no olho em uma falta não cobrada por um juiz infeliz. Fiquei um mês quase carregando um tapa-olho enorme. Talvez esta seja a razão para eu não jogar e não sentir mais graça em acompanhar os jogos: traumas de criança. Sou tão ruim quanto o perna-de-pau do circo. Nem me convide para bater uma bola, pois posso quebrar-lhe a canela. Se for para ficar no gol – diga-se de passagem, a minha posição preferida – até posso pensar, mas nada garantido.

Ah, isso tudo até chegar a Copa. A Copa do mundo esperada por milhões de pessoas neste planeta, quer dizer, esperada pelo mundo inteiro e, se duvidar, esperada por outros sistemas galácticos. Somos levados por uma emoção olímpica daquelas que só no carnaval são externadas e até o mais lúgubre Ser amanhece. Porque todos sabem, a Copa é A COPA e não uma copinha qualquer. É como se fosse um desacato religioso não gostar de copa.

E é gostando de Copa que abro a minha garganta para um profundo GOOOOL do time do Brasil. Está certo que eles não jogaram lá essas coisas no primeiro jogo, pois o Ronaldo (fenômeno) estava mais pra lá do que pra cá e o único fenômeno que apareceu foi uns quilos a mais; muito menos o segundo jogo foi a apresentação do século. Mas quem sou eu para criticar? Será que eu faria melhor? Bem, para bom torcedor meio chute basta. O importante é bater na redondinha e enterrá-la na rede branca. O importante é COMPETIR.

Copa é lugar para todos, aliás, não tem nem lugar para se andar nas ruas. São camisas, bolas, bonés, cornetas e outras coisas mais que são quase que jogadas no rosto dos torcedores fiéis e aficionados em futebol, eternizando o Brasil em suas cores e formas. Nunca vi tanta coisa junta representando o Brasil como nos períodos da Copa. Vai de lenços de cabeça até fraldas para crianças e sanduíches ornamentados. É o espírito patriótico que desembainha a sua espada.

Outro dia, flanando por aí, observei um grupo que preparava uma oferenda. Adivinhem, para que o Brasil seja campeão. Isso sim é patriotismo! Em vez de uma galinha preta, uma galinha verde e amarela.

São tantas as promessas infindas que me perco nas contas. Nunca fiz uma sequer. Inclusive, acho uma besteira, afinal, quem embolsará os milhões não serei eu. Mas que elas existem, ah, isso sim, existem. São dietas fenomenais da lua, do sol, dos astros; dízimo aos pobres, deixar o cabelo crescer até o pé, mandingas e outras coisas. Entretanto, desculpem tocar no assunto, mas o “ser brasileiro”, pelo que vejo, é o que menos importa nestas horas.

Venhamos e convenhamos, é incrível como somos apenas patriotas quando estamos interessados em Copa do Mundo. Nunca vi alguém emplacar uma promessa para que a fome no mundo desapareça ou, ainda, para que o Brasil seja auto-sustentável. Jamais observei despachos para que o mundo melhorasse em sua ignorância. Nunca vi reivindicarem saúde, alimentação, escolas mais equipadas ou que o nosso ilustríssimo presidente deixasse um pouco de lado as suas medidas provisórias e atentasse mais aos hospitais superlotados. Sinceramente, a única coisa que vejo reivindicarem são os aumentos de salário, isso, diga-se de passagem, apenas para bancários e outros que ganham mais de seis salários mínimos e sempre querem mais. E, quando tudo acaba, as bandeiras são baixadas e o espírito brasileiro da unificação se esvai juntamente com os momentos, que ficam apenas na memória do tempo que, muitas vezes, prefere ser desmemoriado.

Tudo bem, tudo bem, sei que estou de rabugice. Quem sabe uma dessas gripes não me atacou e estou descontente por não ter podido vibrar juntamente com as cornetas nesta Copa?

Apesar de tudo estamos seguindo em frente, com promessas ou sem promessas. Um dia, talvez, seremos todos patriotas de sangue e não apenas de garganta. Claro que existem muitos por aí, e não estou me referindo aos revolucionários, mas apenas no patriotismo interno dos atos – Hitler é um bom exemplo.

Pelo menos, uma coisa é certa: a copa é A COPA e não uma copinha qualquer.

Evoé, Copa, com suas energias que unificam e glorificam o Brasil. Já que a sexta estrela não brilhou no negrume do universo, quem sabe não virá um País melhor?


Escrito por Angel Cabeza às 12:56
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PELAS GAVETAS

Abstrato - Angel Estevez


Revirando alguns guardados acabamos encontrando pedaços de tempo onde estão guardadas coisas, ou que esquecemos ou que queremos que sejam esquecidas.
Abaixo uma pequena série de Haikais livres que deveriam estar esquecidos.


Templo nublado.
Céu nervoso ou
meu coração desesperado?

*

Esta vida eu tiro de letra.
Só não me roubem
a caneta.

*

A vida vai a mil por hora.
E eu aqui neste
imenso engarrafamento.

*

Lua cheia.
O mar é inusitadamente
pequeno.

*

A vida veio vindo
e "foice"
indo.




Escrito por Angel Cabeza às 12:24
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